Pular para o conteúdo
Ciência

A fome não mexe apenas com o estômago — ela também altera seu comportamento

Aquela irritação que aparece quando você passa muito tempo sem comer pode ter uma explicação mais profunda. Cientistas descobriram um mecanismo cerebral que ajuda a entender o fenômeno.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Você está com fome, alguém diz algo que normalmente não incomodaria e, de repente, a reação parece muito maior do que deveria. O fenômeno é tão comum que ganhou até um nome: hangry, uma mistura de hungry e angry. Mas essa mudança de humor não parece ser apenas uma questão de estômago vazio. Pesquisadores descobriram que a falta de alimento pode alterar a maneira como o cérebro avalia riscos, recompensas e conflitos.

Quando conseguir comida passa a valer mais a pena

Sentir fome não significa simplesmente experimentar uma sensação física desagradável. Quando as reservas de energia diminuem, o organismo precisa mudar suas prioridades — e o cérebro participa ativamente dessa transformação.

Do ponto de vista evolutivo, isso faz bastante sentido. Durante grande parte da história humana e animal, encontrar comida não era algo garantido. Conseguir alimento podia exigir competição, deslocamento por ambientes perigosos ou confronto com outros indivíduos.

Quando a energia disponível está baixa, portanto, o benefício potencial de conseguir comida aumenta. Ao mesmo tempo, o cérebro precisa avaliar se vale a pena assumir determinados riscos para alcançar essa recompensa.

É como se o cálculo interno mudasse.

Uma situação que pareceria perigosa ou pouco vantajosa quando o organismo está alimentado pode se tornar mais atraente quando existe uma necessidade energética urgente.

Isso não significa que a fome transforme automaticamente alguém em uma pessoa agressiva. O que muda é o equilíbrio entre o possível custo de uma ação e aquilo que pode ser obtido com ela.

Para descobrir como esse mecanismo funciona no cérebro, pesquisadores recorreram a um animal pequeno, mas extremamente útil para a ciência: a mosca-das-frutas do gênero Drosophila.

Uma pequena região do cérebro parece fazer a conexão

Os cientistas utilizaram técnicas de optogenética, capazes de ativar ou inibir neurônios específicos usando luz. Isso permitiu observar com muito mais precisão o que acontecia no cérebro dos animais quando seu estado nutricional mudava.

O experimento revelou uma peça importante desse circuito: um neurônio chamado MBON11.

Essa célula parece integrar informações sobre diferentes tipos de deficiência nutricional, incluindo a falta de proteínas e carboidratos, e transformar esses sinais em alterações na intensidade do comportamento agressivo.

Na prática, ela funciona como uma espécie de ponto de ligação entre uma necessidade interna do organismo e uma resposta social.

Quando a energia está em falta, o cérebro não recebe apenas a informação de que “é preciso comer”. Ele também pode ajustar a maneira como o animal reage ao ambiente e aos outros indivíduos.

O estudo encontrou ainda outro participante importante nessa equação: a dopamina.

Conhecida por seu envolvimento com motivação, recompensa e aprendizagem, essa molécula apresentou padrões diferentes dependendo do estado nutricional das moscas.

Quando estavam alimentadas, uma maior atividade dopaminérgica estava associada a níveis menores de agressividade. Sob fome, entretanto, esse equilíbrio mudava e a resposta agressiva aumentava.

Outras substâncias também participaram do processo, incluindo serotonina e octopamina, que desempenha funções importantes no sistema nervoso dos invertebrados.

O mesmo princípio pode ajudar a explicar nosso mau humor

O circuito identificado pelos pesquisadores está localizado no chamado corpo fungiforme, uma região cerebral tradicionalmente associada a processos como aprendizagem e memória.

A descoberta sugere que essa estrutura também participa de uma tarefa diferente: ajustar comportamentos sociais de acordo com as necessidades energéticas do organismo.

Mas existe uma ressalva importante. O experimento foi realizado em moscas, e não em seres humanos. Portanto, não é possível simplesmente afirmar que o mesmo circuito produz o comportamento conhecido como hangry nas pessoas.

Ainda assim, alguns princípios gerais são encontrados em mamíferos. No cérebro humano, estruturas como os gânglios da base participam de sistemas relacionados à motivação, recompensa e comportamento. A fome também provoca alterações hormonais e sinais neurais capazes de influenciar impulsividade, atenção e estado emocional.

A grande diferença é que nosso cérebro possui redes muito mais complexas envolvidas no planejamento, autocontrole e regulação das emoções.

Por isso, estar com fome pode aumentar a irritabilidade ou tornar uma reação emocional mais intensa, mas não determina automaticamente o que uma pessoa fará.

O cérebro simplesmente recebe uma mensagem prioritária: os recursos energéticos estão diminuindo e conseguir alimento se tornou mais importante.

A partir daí, outros sistemas entram em ação para decidir como responder.

É justamente por isso que aquela irritação aparentemente banal antes do almoço pode ter uma história muito mais interessante por trás. O estômago vazio não está apenas pedindo comida: ele pode estar ajudando a mudar temporariamente a maneira como o cérebro calcula recompensas, riscos e conflitos.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados