Pular para o conteúdo
Ciência

A genética brasileira pode explicar quem chega aos 110 anos sem doenças

Um estudo inédito conduzido por pesquisadores brasileiros revela por que supercentenários conseguem chegar aos 110 anos com menos doenças e maior funcionalidade. A chave está em mecanismos genéticos raros, ligados à limpeza celular, adaptação do sistema imunológico e reparo eficiente do DNA — características favorecidas pela diversidade genética da população brasileira.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

A maioria das pessoas associa o envelhecimento ao surgimento inevitável de doenças crônicas, perda cognitiva e fragilidade física. No entanto, um grupo extremamente raro desafia essa lógica biológica: os supercentenários, indivíduos que ultrapassam os 110 anos de idade. Agora, uma pesquisa liderada por cientistas brasileiros começa a explicar por que isso acontece.

Publicado no Genomic Psychiatry, o estudo analisou características genéticas e celulares de supercentenários brasileiros e identificou mecanismos biológicos capazes de retardar o envelhecimento e impedir o acúmulo de doenças comuns da idade avançada, como câncer, demência e falhas imunológicas.

O Brasil como laboratório natural da longevidade

A genética brasileira pode explicar quem chega aos 110 anos sem doenças
© Pexels

A pesquisa foi conduzida pelo Centro de Pesquisas sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP). Segundo os cientistas, a miscigenação brasileira — que combina ancestrais indígenas, africanos, europeus e asiáticos — cria um cenário genético único no mundo.

Estudos genômicos revelaram mais de 8 milhões de variantes genéticas exclusivas da população brasileira, ausentes em grandes bancos de dados internacionais. Essa diversidade permite identificar genes protetores que passam despercebidos em populações mais homogêneas, como as da Europa e da América do Norte.

O Brasil, inclusive, concentra números impressionantes: três dos dez homens mais velhos do mundo validados cientificamente são brasileiros, além de uma proporção elevada de mulheres supercentenárias em comparação com países desenvolvidos.

Por que o corpo desses idosos funciona melhor

A pesquisa aponta que a longevidade extrema não é resultado apenas de estilo de vida ou sorte, mas de uma arquitetura biológica altamente eficiente. Três mecanismos se destacam.

Sistema imunológico que se adapta ao tempo

Com o avanço da idade, o sistema imunológico costuma perder eficiência, tornando o organismo mais vulnerável a infecções e câncer. Nos supercentenários, ocorre o oposto: o sistema imunológico se reorganiza.

Os pesquisadores identificaram uma expansão funcional de células T CD4+ citotóxicas, capazes de reconhecer e eliminar células defeituosas ou infectadas mesmo em idades muito avançadas. Essa adaptação permite que o corpo continue respondendo a ameaças sem entrar em colapso inflamatório.

A limpeza celular que impede o acúmulo de falhas

Outro fator central é a manutenção da proteostase — o equilíbrio na produção, reciclagem e eliminação de proteínas celulares. Esse processo depende da autofagia, um mecanismo que funciona como um sistema de “limpeza interna”.

Em supercentenários, a autofagia permanece ativa em níveis semelhantes aos de pessoas muito mais jovens. Isso impede o acúmulo de resíduos celulares tóxicos, que estão associados a doenças neurodegenerativas, envelhecimento acelerado e falhas metabólicas.

DNA mais estável ao longo das décadas

O estudo também identificou variantes raras em genes ligados ao reparo do DNA. Essas mutações benéficas tornam as células mais eficientes em corrigir danos causados por radiação, inflamações e erros naturais da divisão celular.

Com um sistema de reparo mais robusto, o risco de mutações perigosas diminui drasticamente ao longo da vida, reduzindo a probabilidade de câncer e outras doenças relacionadas ao envelhecimento celular.

O teste definitivo: a pandemia

A resistência biológica desses indivíduos foi colocada à prova durante a pandemia de covid-19. Antes mesmo da vacinação, pesquisadores acompanharam supercentenários brasileiros que contraíram o vírus.

Os resultados chamaram atenção: níveis elevados de anticorpos, proteínas de defesa natural e resposta imune eficaz, mesmo em idades extremas. Em muitos casos, a recuperação foi mais rápida do que a observada em pessoas décadas mais jovens.

A herança da longevidade

Outro padrão observado foi o familiar. Parentes próximos de centenários apresentam probabilidade significativamente maior de alcançar idades avançadas. No Brasil, há registros de famílias inteiras com múltiplos membros ultrapassando os 100 anos, reforçando o peso da genética sobre os hábitos individuais.

Segundo os pesquisadores, compreender esses mecanismos pode abrir caminho para terapias que imitem esses processos biológicos, ajudando a população geral a envelhecer com mais saúde, mesmo que não atinja idades extremas.

[Fonte: Correio Braziliense]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados