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Ciência

A geração que não aceita envelhecer como antes

Viver mais não é apenas questão de tempo — é uma mudança profunda na forma como entendemos a vida. O geriatra Wilson Jacob Filho, da USP e do Instituto do Coração (InCor), afirma que estamos no meio de uma “revolução silenciosa”: pela primeira vez na história, milhões de pessoas estão envelhecendo de forma ativa, produtiva e conectada.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Em sua fala no Summit Saúde e Bem-Estar, promovido pelo Estadão, Jacob lembrou que a população mundial saltou de 2 bilhões para 8 bilhões em apenas um século — e que a expectativa de vida subiu de 50 para mais de 80 anos.

“Não prolongamos a infância nem a adolescência, mas prolongamos o envelhecimento”, afirmou. Para o médico, essa transformação exige repensar a forma como a sociedade se organiza, pois mais pessoas estão vivendo não apenas mais tempo, mas melhor.

A mudança é também cultural: “Na minha juventude, aos 50 anos já se falava em ‘crepúsculo da existência’. Hoje, uma mulher de 85 pode ser capa de revista e símbolo de vitalidade”, brincou.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), envelhecer bem não é apenas evitar doenças — é manter o bem-estar físico, mental e social ao longo da vida. Ou, como resume Jacob: “A idade cronológica é apenas um detalhe.”

Idade funcional: o que realmente importa

A geração que não aceita envelhecer como antes
© Pexels

Durante a pandemia de covid-19, uma pesquisa do InCor analisou mais de 5 mil pacientes acima de 50 anos internados com o vírus. A conclusão foi clara: o que define o risco de vida não é a idade no documento, mas a idade funcional — a capacidade de realizar tarefas diárias com autonomia.

“Pacientes idosos com boa funcionalidade tiveram mortalidade semelhante à de adultos jovens”, explicou o geriatra. Já pessoas da mesma faixa etária, mas com limitações físicas, tiveram índices de mortalidade muito maiores.

Essa diferença mostra que envelhecer é um processo individual — e profundamente desigual. “Envelhecer na Amazônia é diferente de envelhecer em São Paulo ou em Porto Alegre”, observou Jacob.

Longevidade: uma conquista com novos custos

O envelhecimento populacional é um marco civilizatório, mas traz desafios econômicos e ambientais. Enquanto países como Suécia e Inglaterra levaram mais de um século para dobrar a população idosa, Brasil e China farão isso em menos de 20 anos — pressionando os sistemas de saúde, previdência e cuidado.

Outro fator preocupante é o impacto das mudanças climáticas. Estudos mostram que ondas de calor extremo aceleram o envelhecimento biológico tanto quanto fumar ou levar uma vida sedentária. “Cidades com menos árvores e ventilação natural são especialmente perigosas para os idosos”, alertou o médico.

Etarismo: o preconceito que envelhece mais rápido que a pele

O avanço da longevidade também escancarou um problema silencioso: o etarismo, ou discriminação por idade. Segundo Jacob, trata-se de uma forma de violência social e econômica. “O etarismo reduz a expectativa de vida em até 7,5 anos e aumenta os gastos com saúde”, destacou.

Nos Estados Unidos, um estudo estima que 1 em cada 7 dólares gastos em saúde esteja ligado aos efeitos do preconceito etário. “Além de viverem menos, as pessoas discriminadas por idade vivem pior e gastam mais com doenças evitáveis. O etarismo é um crime — e deve ser combatido como tal.”

O futuro do envelhecer

Para o especialista, educar para o envelhecimento saudável deve começar ainda na escola. Crianças e adolescentes precisam entender que envelhecer é parte natural da vida — e que viver mais é uma conquista coletiva, não um problema individual.

“Não se trata do meu interesse ou do seu, mas de um projeto social e sustentável. Precisamos de solidariedade e planejamento para envelhecer com dignidade”, concluiu.

[Fonte: Terra]

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