Quem vive com gatos sabe: eles parecem ter um plano próprio — e talvez isso se reflita até em sua história evolutiva. Um estudo recente traz novas pistas sobre quando os felinos realmente se aproximaram dos humanos e se espalharam pelo planeta. A pesquisa contradiz hipóteses tradicionais e indica que os gatos domésticos podem ter demorado muito mais para chegar à Europa do que se pensava, reabrindo um debate científico que já dura décadas.
A origem felina: menos clara do que parecia
Os gatos domésticos (Felis catus) descendem do gato-selvagem africano (Felis lybica), espécie ainda existente. Diferente dos cães — moldados por milhares de anos de seleção humana para funções específicas — os gatos mudaram pouco em aparência e comportamento em relação aos ancestrais selvagens. Por isso, rastrear quando ocorreu a domesticação sempre foi um desafio.
Existem duas teorias clássicas:
- Domesticação no Levante, há cerca de 10.000 anos, com agricultores neolíticos.
- Domesticação no Egito, cerca de 4.000 anos atrás, quando os gatos já eram reverenciados.
O novo estudo, porém, sugere outra cronologia.
A investigação genética que mudou o enredo
Pesquisadores analisaram DNA antigo usando técnicas modernas de sequenciamento — uma espécie de “máquina do tempo biológica”. Foram examinados 70 gatos antigos datados entre o século IX a.C. e o século XIX d.C., encontrados na Europa, Mediterrâneo, Anatólia e Norte da África. Esses dados foram comparados com genomas de gatos modernos e selvagens.
Entre as descobertas principais:
- Os gatos domésticos de hoje estão geneticamente mais próximos de gatos selvagens norte-africanos, e não dos do Levante.
- Os primeiros gatos domesticados na Europa só aparecem há cerca de 2.000 anos, enquanto exemplares mais antigos encontrados lá eram gatos-selvagens europeus (Felis silvestris).
- Gatos encontrados na Sardenha parecem descender de uma linhagem selvagem africana trazida à ilha há 2.200 anos — e não de gatos domésticos que fugiram e feralizaram.
Segundo os autores, isso questiona a ideia tradicional de que gatos domesticados chegaram à Europa pela migração neolítica há 6.000 anos.
A dúvida que continua: quando, afinal, os gatos foram domesticados?
Apesar do avanço, o estudo não resolve tudo. Há discrepâncias entre registros genéticos e evidências arqueológicas — artefatos europeus sugerem interação com gatos possivelmente já há 3.000 anos, o que ainda não aparece no DNA analisado.
Outro obstáculo é o Egito: embora existam milhares de múmias de gatos, recuperar DNA desses exemplares é difícil, o que impede uma linha do tempo precisa da transição de selvagem para doméstico.
Cientistas afirmam que a resposta definitiva depende de encontrar e sequenciar felinos norte-africanos, do Oriente Médio e da Turquia com mais de 2.000 anos, algo que o projeto Project Felix já está buscando.
Conquistadores silenciosos — e ainda enigmáticos
Se a domesticação dos gatos foi tardia, sua expansão global foi rápida — e hoje eles habitam praticamente todos os continentes. A relação de cooperação com humanos, iniciada possivelmente para controlar roedores, evoluiu até chegar ao laço afetivo (ou ao domínio psicológico felino, dependendo da perspectiva).
O estudo reforça que ainda há mistérios felinos a desvendar. Mas uma coisa é certa: seja como companheiros ou soberanos domésticos, os gatos conquistaram o mundo — e talvez ainda não tenhamos entendido completamente como fizeram isso.