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Ciência

A neurociência está redescobrindo uma ideia de Freud que parecia ultrapassada há mais de um século

Uma nova pesquisa aponta que uma das principais teorias da neurociência moderna apresenta semelhanças surpreendentes com conceitos formulados por Sigmund Freud há mais de 130 anos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, a psicanálise e a neurociência foram tratadas como áreas quase incompatíveis. Enquanto uma buscava compreender a experiência subjetiva da mente, a outra concentrava seus esforços na biologia do cérebro. Agora, um novo estudo sugere que essa divisão talvez nunca tenha sido tão profunda quanto se imaginava. Segundo os pesquisadores, uma das teorias mais influentes da neurociência atual se aproxima de conceitos desenvolvidos por Sigmund Freud ainda no século XIX.

A teoria do cérebro preditivo aproxima duas áreas antes consideradas rivais

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© Unsplash

O estudo, publicado na revista científica Entropy, propõe que a chamada teoria do cérebro preditivo compartilha fundamentos importantes com a psicanálise.

Segundo esse modelo, o cérebro não reage apenas aos estímulos do ambiente. Na verdade, ele passa o tempo todo tentando antecipar o que acontecerá em seguida.

A cada instante, cria previsões sobre o mundo ao seu redor e compara essas expectativas com as informações recebidas pelos sentidos. Quando há diferenças entre o esperado e o observado, essas previsões são ajustadas continuamente.

Hoje, essa abordagem é considerada uma das principais explicações para processos como percepção, aprendizado, tomada de decisão e regulação emocional.

Para os autores do estudo, essa forma de entender o funcionamento cerebral guarda semelhanças notáveis com ideias que Freud apresentou há mais de 130 anos e que foram posteriormente desenvolvidas por diversos psicanalistas.

Enquanto a neurociência descreve esses mecanismos em termos biológicos e computacionais, a psicanálise procura compreender como eles são vividos subjetivamente por cada indivíduo.

O cérebro interpreta o presente usando experiências do passado

Um dos pontos de convergência destacados pelos pesquisadores envolve o conceito psicanalítico de projeção.

Na psicanálise, projeção ocorre quando uma pessoa atribui aos outros sentimentos, intenções ou características que fazem parte de sua própria experiência interna.

Segundo o estudo, esse fenômeno pode ser compreendido, sob a ótica da neurociência, como resultado dos modelos preditivos construídos pelo cérebro.

As experiências acumuladas ao longo da vida influenciam aquilo que esperamos encontrar em novas situações.

Assim, alguém que viveu repetidas experiências de rejeição pode passar a interpretar comportamentos neutros como sinais de desaprovação, mesmo quando não existem evidências concretas disso.

Para os pesquisadores, o cérebro utiliza essas expectativas como uma maneira de reduzir a incerteza e tornar o ambiente mais previsível.

Embora esse mecanismo facilite decisões rápidas, ele também pode levar a interpretações distorcidas da realidade.

A busca por estabilidade pode explicar diversos transtornos mentais

Outro aspecto em comum entre as duas abordagens é a ideia de que a mente procura constantemente manter certo equilíbrio interno.

Na neurociência, isso ocorre por meio da redução da incerteza.

Quanto mais previsível o ambiente parece, menor tende a ser o esforço exigido do cérebro para interpretar o mundo.

Já a psicanálise descreve um fenômeno semelhante ao observar que muitas pessoas repetem padrões de relacionamento, mesmo quando essas experiências são dolorosas ou prejudiciais.

Segundo os autores, sintomas persistentes de alguns transtornos psicológicos também podem ser entendidos sob essa perspectiva.

Crenças profundamente enraizadas, como esperar constantemente críticas, rejeição ou hostilidade das outras pessoas, funcionariam como modelos mentais extremamente estáveis.

Mesmo produzindo sofrimento, esses padrões continuam ativos porque oferecem uma sensação de previsibilidade ao cérebro.

Isso ajuda a explicar por que mudanças emocionais importantes costumam exigir tempo e não acontecem apenas pela aquisição de novas informações.

Psicoterapia e neurociência podem caminhar juntas

Os pesquisadores defendem que unir os conhecimentos das duas áreas pode oferecer uma compreensão mais completa do funcionamento da mente humana.

A neurociência ajuda a explicar como os mecanismos cerebrais produzem previsões sobre o ambiente.

Já a psicanálise contribui para entender como essas expectativas são vividas nas relações pessoais e como influenciam emoções, comportamentos e interpretações do cotidiano.

Segundo o estudo, muitas dessas expectativas não permanecem apenas na memória consciente.

Elas também são incorporadas em formas automáticas de agir, sentir e responder aos outros, tornando-se parte dos padrões de relacionamento construídos ao longo da vida.

Por isso, os autores sugerem que a psicoterapia pode favorecer mudanças justamente ao proporcionar novas experiências interpessoais capazes de modificar gradualmente esses modelos internos.

Em vez de enxergar neurociência e psicanálise como abordagens concorrentes, o estudo propõe que ambas investigam aspectos diferentes de um mesmo fenômeno. Enquanto uma descreve os mecanismos biológicos que sustentam o cérebro, a outra oferece ferramentas para compreender como esses processos são percebidos e vividos por cada pessoa. Essa aproximação pode abrir caminho para uma psicologia mais integrada, capaz de unir explicações científicas e experiência subjetiva na busca por uma compreensão mais ampla da mente humana.

[Fonte: Science daily]

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