À primeira vista, a chamada “neve rosa” da Antártica parece apenas uma curiosidade visual, quase poética: extensas áreas de neve branca tingidas por tons rosados e avermelhados. Mas por trás dessa aparência incomum existe um processo biológico com consequências diretas para o equilíbrio climático do continente mais frio do planeta. Segundo um novo estudo europeu, essas manchas coloridas estão ajudando a acelerar o derretimento do gelo antártico.
O fenômeno é causado pela proliferação de microalgas que produzem pigmentos avermelhados como proteção contra a radiação solar. Durante o verão austral, quando há mais luz e temperaturas relativamente mais altas, essas algas se multiplicam na superfície da neve e do gelo, alterando suas propriedades físicas.
Microalgas que mudam a cor — e o comportamento — da neve

A pesquisa foi liderada pelo Instituto de Ciências Marinhas da Andaluzia (ICMAN-CSIC), com participação da Universidade de Cádiz e da Universidade do País Vasco. Os cientistas descobriram que as florizações dessas algas são muito mais extensas do que se pensava anteriormente.
Nas ilhas Shetland do Sul, arquipélago localizado a cerca de 120 quilômetros da Antártica continental, as microalgas podem cobrir entre 3% e 12% da superfície durante o verão do hemisfério sul. Em seu pico máximo, isso representa até 176 quilômetros quadrados tingidos de rosa — uma área maior do que as estimativas anteriores.
Essas algas não se restringem a um único tipo de ambiente. O estudo identificou sua presença em glaciares, neve costeira e até em pequenos casquetes polares espalhados pelo arquipélago.
O papel do albedo no derretimento
O principal impacto da neve rosa está ligado ao albedo, termo usado para descrever a capacidade de uma superfície refletir a radiação solar. Neve e gelo brancos refletem grande parte da luz que recebem, ajudando a manter temperaturas mais baixas. Quando a superfície escurece, mesmo levemente, ela passa a absorver mais calor.
De acordo com os resultados publicados na revista Communications Earth & Environment, a presença dessas algas pode reduzir o albedo da superfície em até 20%. Essa queda favorece a absorção de energia solar, aquece o gelo e acelera o processo de derretimento.
Esse mecanismo cria um ciclo preocupante. “O aumento do degelo gera condições ainda mais favoráveis para a proliferação dessas algas”, explicou à agência EFE o pesquisador Alejandro Román, do CSIC, primeiro autor do estudo. Quanto mais gelo derrete, mais água líquida fica disponível, e isso facilita o crescimento de novas algas, intensificando o efeito.
Um fenômeno em expansão?
O estudo analisou dados entre 2018 e 2024 e identificou uma tendência de aumento tanto na extensão quanto na duração dessas florizações durante o verão austral, que vai de dezembro a fevereiro. Apesar disso, os autores são cautelosos e destacam a necessidade de séries temporais mais longas para confirmar se esse crescimento é consistente ao longo das décadas.
Ainda assim, os indícios reforçam a preocupação de que a neve rosa possa se tornar mais comum em um cenário de aquecimento global, atuando como um fator adicional de aceleração do degelo antártico.
Satélites, drones e inteligência artificial

Para mapear o fenômeno com precisão inédita, os pesquisadores combinaram imagens de satélite com dados coletados por drones equipados com sensores hiperespectrais. Essa abordagem permitiu criar a primeira base de dados hiperespectral aberta dedicada a florizações massivas de algas vermelhas na Antártica.
Com esse material, a equipe aplicou técnicas de aprendizado de máquina para analisar 45 imagens de satélite livres de nuvens, cobrindo toda a área das ilhas Shetland do Sul. O resultado foi um mapeamento detalhado da distribuição espacial das algas, algo que antes não era possível em larga escala.
Por que isso importa para o clima global
Embora microscópicas, essas algas desempenham um papel desproporcional nos processos físicos do gelo. Ao alterar a cor da superfície, elas interferem diretamente no balanço energético da Antártica, um dos principais reguladores do clima terrestre.
Os autores destacam que compreender esse fenômeno é essencial para melhorar os modelos climáticos e monitorar a resposta dos ecossistemas polares ao aquecimento global. A neve rosa deixa claro que, na Antártica, até organismos invisíveis a olho nu podem influenciar o futuro do gelo — e, por extensão, o nível dos oceanos em todo o planeta.
[ Fonte: BioChile ]