Os glaciares armazenam a maior parte da água doce do planeta e funcionam como reguladores naturais do clima. Seu recuo acelerado, impulsionado pelo aquecimento global, deixou de ser uma projeção distante e passou a produzir efeitos mensuráveis em ecossistemas e sociedades. Em 2025, a atenção científica se intensificou após a declaração do Ano Internacional da Conservação dos Glaciares por Organização das Nações Unidas, UNESCO e a Organização Meteorológica Mundial.
Uma desaceleração inesperada no derretimento do Ártico

Um estudo publicado na Nature Communications mostrou que a perda de gelo marinho no Ártico diminuiu o ritmo desde 2012. Pesquisadores da Hong Kong University of Science and Technology associaram o fenômeno à Oscilação do Atlântico Norte, um padrão atmosférico natural que alterna a entrada de massas de ar frio e quente na região.
Os dados indicam que a área coberta por gelo segue mais estável, mas a espessura e a massa total continuam em declínio. Os cientistas alertam que esse “respiro climático” pode durar apenas até 2030 ou 2040, caso as emissões de gases de efeito estufa não sejam reduzidas.
A perda acelerada dos glaciares da Patagônia
Na Patagônia, a situação é oposta. Glaciares da região já perderam mais de 25% de seu volume desde 1940. Outro estudo na Nature Communications apontou o aumento da água de degelo escoando pela superfície como principal causa da aceleração recente.
Segundo o pesquisador Brice Noël, as nevascas se mantiveram estáveis por décadas, mas o aquecimento do ar intensificou o derretimento. Só nos últimos 20 anos, a região perdeu cerca de 26,5 bilhões de toneladas de gelo por ano, contribuindo com 4 milímetros para o aumento do nível do mar. As projeções indicam que, sem proteção, esses glaciares podem desaparecer em cerca de 250 anos, afetando Chile e Argentina.
O impacto do degelo na vida marinha da Groenlândia
O recuo do glaciar Jakobshavn, na Groenlândia, revelou um efeito colateral pouco conhecido: mudanças na produtividade oceânica. Um estudo em Nature Communications Earth & Environment mostrou que o degelo transporta nutrientes das profundezas para a superfície, estimulando o crescimento do fitoplâncton na baía de Disko.
Em anos de degelo intenso, a produção desses organismos aumentou até 40% no verão. Embora isso favoreça a absorção de CO₂, o aquecimento da água reduz a capacidade do oceano de reter o gás, criando um equilíbrio delicado com possíveis impactos na pesca e na biodiversidade.
O permafrost e o carbono liberado na atmosfera
Uma pesquisa publicada na Science Advances analisou o papel do permafrost no ciclo global do carbono. Ao reconstruir os últimos 21 mil anos, os cientistas concluíram que o degelo pós-era glacial liberou tanto CO₂ que respondeu por quase metade do aumento atmosférico observado naquele período.
Embora pântanos naturais tenham absorvido parte desse carbono no passado, as condições atuais — com menos espaço para novas turfeiras e elevação do nível do mar — tornam improvável que esse mecanismo volte a compensar as emissões futuras.
Rios invisíveis sob o gelo da Antártida Oriental

Na Antártida Oriental, a bacia subglacial de Aurora chamou a atenção por seu potencial impacto global. Um estudo da Universidade de Waterloo revelou que canais de água sob o gelo reorganizam o fluxo interno, acelerando o derretimento pela base.
Os pesquisadores alertam que modelos climáticos tradicionais subestimam esse efeito. Se toda a região de Aurora perder gelo, o nível do mar pode subir até quatro metros, um cenário extremo, mas possível em projeções de longo prazo.
O glaciar Thwaites e o risco de colapso em cadeia
Conhecido como “Glaciar do Juízo Final”, o Thwaites, na Antártida Ocidental, continua sendo uma das maiores ameaças. Um estudo internacional mostrou que fraturas internas vêm enfraquecendo sua plataforma flutuante há duas décadas.
Quanto mais rachaduras surgem, mais rápido o gelo escoa para o mar. Se a plataforma colapsar, o suporte ao gelo continental desaparece, acelerando a elevação do nível do mar em até 65 centímetros. O mais preocupante é que esse padrão pode se repetir em outras áreas vulneráveis da Antártida.
[ Fonte: Infobae ]