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Tecnologia

A nova obsessão do Vale do Silício: pagar até R$ 270 mil por embriões “superinteligentes”

Bilionários da tecnologia e famílias de alta renda no Vale do Silício estão recorrendo a testes genéticos que prometem prever o QI de embriões. O procedimento, que pode custar até R$ 270 mil, levanta debates éticos e científicos sobre desigualdade, meritocracia genética e os limites da biotecnologia na reprodução humana.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O Vale do Silício, berço das maiores inovações tecnológicas do planeta, agora volta seus olhos para a biotecnologia — e para o futuro da inteligência humana. Famílias estão pagando dezenas de milhares de dólares por testes genéticos que prometem estimar o QI de embriões antes da fertilização in vitro. Para alguns, trata-se da esperança de criar filhos mais inteligentes e preparados; para outros, de uma perigosa corrida rumo à eugenia do século XXI.

O mercado da “otimização genética”

Um novo estudo publicado na revista Science mostra que, mesmo nos primeiros meses de vida, os bebês já registram experiências concretas
© Unsplash

Empresas como Nucleus Genomics e Herasight oferecem testes que analisam embriões e produzem previsões de QI. Na Nucleus, o custo gira em torno de US$ 6.000 (R$ 32 mil). Já a Herasight cobra até US$ 50.000 (R$ 270 mil) por pacotes que incluem comparações de risco genético para doenças como Alzheimer, câncer e TDAH.

Segundo Stephen Hsu, cofundador da Genomic Prediction, a demanda vem principalmente de famílias de alta renda ou de comunidades “racionalistas” fascinadas pela inteligência. “Muitos querem usar o QI como critério para decidir qual embrião implantar”, afirmou.

A visão dos bilionários da tecnologia

Musk Transportation
© Jean Catuffe/GC Images

Figuras como Elon Musk defendem publicamente que pessoas intelectualmente talentosas tenham mais filhos. Paralelamente, no Vale do Silício surgem iniciativas inusitadas, como agências de relacionamento que aproximam executivos de tecnologia de parceiros igualmente “brilhantes”, com a meta explícita de gerar descendentes acima da média.

Esse fascínio pelo QI reflete uma crença já enraizada na região: o mérito e o sucesso estariam ligados a “bons genes”. Para o geneticista de Harvard, Sasha Gusev, o raciocínio é claro: “Eles acreditam que tiveram êxito por serem inteligentes e agora querem garantir o mesmo para os filhos.”

O debate ético: desigualdade genética

Bioeticistas soam o alarme. Hank Greely, da Universidade de Stanford, alerta para o risco de uma sociedade dividida: “É o enredo perfeito de uma distopia: os ricos criam uma supercasta geneticamente aperfeiçoada, enquanto o resto da população fica para trás.”

A seleção de embriões baseada em QI também levanta dilemas sobre justiça e acesso. Poucos casais comuns enfrentariam os custos e os desafios da fertilização in vitro se não houvesse risco de infertilidade.

Histórias reais no Vale do Silício

Um casal de engenheiros de software na Califórnia decidiu recorrer voluntariamente à fertilização in vitro com a Herasight. Em planilhas do Google, compararam risco de Alzheimer, TDAH e transtorno bipolar contra ganhos previstos de QI. O embrião com a pontuação mais alta foi implantado — resultando na filha que hoje criam.

“Foi como resolver um grande quebra-cabeça lógico”, disseram.

Limites científicos e riscos ocultos

Apesar da empolgação, especialistas lembram que a ciência está longe de entregar certezas. O professor Shai Carmi, da Universidade Hebraica de Jerusalém, explica que os modelos atuais conseguem prever apenas entre 5% e 10% da variação de habilidades cognitivas.

Em média, a triagem genética pode acrescentar apenas três a quatro pontos de QI em relação a uma escolha aleatória de embrião. “Não é algo que transforme seu filho em um prodígio”, ressalta Carmi.

Além disso, escolher embriões com maior QI previsto pode trazer consequências indesejadas, como maior risco de autismo.

Entre a ficção científica e a realidade

Para alguns críticos, a busca por filhos mais inteligentes poderia ser substituída por alternativas mais antigas — e menos controversas — como educação de qualidade ou simplesmente escolher parceiros inteligentes. Como ironizou Paula Amato, médica da Oregon Health & Science University: “É provavelmente mais divertido.”

Ainda assim, em um ambiente obcecado por performance e inovação, a promessa de criar uma geração de “bebês superinteligentes” encontra terreno fértil. A grande dúvida é até onde a sociedade está disposta a ir para transformar ficção científica em realidade.

 

[ Fonte: Época Negocios ]

 

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