Tubarões e raias sempre foram vendidos como símbolos de resistência: criaturas “antigas”, supostamente imunes às grandes viradas do planeta. A narrativa é sedutora, mas tem um problema — ela simplifica demais. Uma pesquisa internacional acaba de reconstruir uma linha do tempo gigantesca e mostra que a verdadeira história desses animais é muito menos confortável. E, quando você entende onde eles realmente atingiram seu auge, o presente passa a parecer bem mais preocupante.
Quando os oceanos foram o palco do auge — e quase ninguém imagina quando foi
O novo trabalho, publicado na revista Current Biology, revisitou a trajetória evolutiva de tubarões e raias ao longo de um recorte monumental: cerca de 145 milhões de anos. Em vez de olhar apenas para “quem existe hoje”, os cientistas tentaram responder uma pergunta mais ambiciosa: como a diversidade desses vertebrados marinhos oscilou no tempo — e em que momento ela atingiu seu pico real.
Para chegar a uma reconstrução mais fiel, a equipe cruzou mais de 24 mil registros fósseis coletados em diferentes regiões do planeta com modelos de aprendizado profundo. O objetivo era corrigir um problema clássico da paleontologia: o registro fóssil é incompleto e cheio de vieses. Há espécies que fossilizam melhor, regiões mais estudadas que outras e períodos com mais “lacunas” do que evidências. Ao ajustar essas distorções, a história que emerge é clara — e surpreendente.
A fase de maior esplendor desses animais não foi recente, nem “pré-humana” no sentido mais comum. O auge aconteceu muito antes: no Eoceno Médio, cerca de 40 milhões de anos atrás, quando os oceanos teriam abrigado uma variedade de tubarões e raias muito superior à de hoje. Em outras palavras: a diversidade atual seria apenas um retrato reduzido de um passado muito mais rico, com mais formas, nichos e especializações do que conseguimos imaginar olhando apenas para os mares modernos.
Esse detalhe muda a conversa. Porque, se o pico não é o presente, então a sensação de “equilíbrio natural” pode ser uma ilusão criada pela nossa memória curta.

O impacto que apagou os dinossauros — e por que isso não derrubou esses predadores
A pesquisa também cutuca uma das imagens mais famosas da história da Terra: o asteroide de cerca de 66 milhões de anos atrás, associado ao colapso que varreu os dinossauros não aviários. Em histórias populares, esse evento costuma ser tratado como um “apagão global” que derrubou quase tudo. Mas, para tubarões e raias, o registro aponta outra direção.
Em vez de um colapso massivo, os dados sugerem uma queda moderada, acompanhada por algo decisivo: um grande “vai e vem” evolutivo. Algumas linhagens diminuem, outras surgem, várias se reorganizam — e, com o tempo, o grupo continua se diversificando. Ou seja, o evento foi um golpe… mas não um nocaute. E isso ajuda a explicar por que, milhões de anos depois, eles ainda estariam no caminho do próprio auge.
O ponto mais inquietante do estudo vem logo em seguida: depois do pico de 40 milhões de anos, a diversidade começa a recuar de forma lenta e persistente. Não é uma queda dramática de uma década para outra. É um declínio prolongado, implacável, que o trabalho estima em algo próximo de 41% de perda até a diversidade atual.
Segundo os autores, esse recuo prolongado teria pesado mais na “pobreza” de espécies que vemos hoje do que a própria extinção do fim do Cretáceo. E aí está a ironia: sobreviver ao evento mais famoso não significou prosperar para sempre.
O passado dá a pista… e o presente entrega o golpe final
Se a história natural já vinha desenhando uma queda lenta, o mundo moderno acelerou tudo. Hoje, tubarões e raias aparecem entre os vertebrados marinhos mais ameaçados do planeta — e, dessa vez, o motor é bem menos “geológico” e bem mais humano.
Sobrepesca, captura incidental, destruição de habitats costeiros, pressão sobre recifes, degradação de áreas de reprodução e o aquecimento dos oceanos se somam a uma tendência de longo prazo. O estudo ajuda a colocar essa crise em perspectiva: a diversidade atual pode representar apenas uma fração do potencial evolutivo que esses animais já tiveram — e isso torna o risco de perdas irreversíveis ainda mais grave.
Há um tipo de alerta embutido nessa reconstrução: se criaturas capazes de atravessar mudanças climáticas antigas e eventos extremos ainda assim chegaram a um momento tão vulnerável, então o problema não é “fragilidade natural”. É pressão acumulada — e, agora, acelerada.
Proteger tubarões e raias deixa de ser apenas uma pauta “carismática”. Vira uma questão de estabilidade ecológica. Porque, quando predadores e espécies-chave desaparecem, o oceano não perde só um animal emblemático. Ele perde o equilíbrio que sustenta cadeias inteiras de vida há milhões de anos.