Os microplásticos já são conhecidos por contaminar oceanos, solos e até o corpo humano. Agora, cientistas descobriram que essas partículas também estão influenciando o clima da Terra. Um estudo recente publicado na revista Nature Climate Change revela que microplásticos presentes no ar podem contribuir para o aquecimento global de forma mais significativa do que se pensava.
Um novo fator no aquecimento global
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Duke, em colaboração com a Universidade Fudan. O estudo analisou como micro e nanoplásticos interagem com a luz solar e influenciam o equilíbrio de energia da atmosfera.
Os resultados indicam que essas partículas podem gerar um efeito de aquecimento equivalente a cerca de 16% do causado pelo carbono negro — um dos principais poluentes responsáveis pelo aquecimento global.
Segundo o pesquisador Drew Shindell, antes desse estudo não estava claro se os microplásticos ajudavam a aquecer ou resfriar o planeta. Agora, há evidências consistentes de que o efeito líquido é de aquecimento.
Microplásticos estão por toda parte — até no ar
Os microplásticos surgem a partir da degradação de resíduos maiores, tanto em terra quanto no oceano. Com o tempo, esses fragmentos se tornam tão leves que podem ser transportados pelo vento e alcançar a atmosfera.
Regiões oceânicas conhecidas como giros — grandes sistemas de correntes circulares — concentram grandes quantidades de plástico. Um exemplo é o Grande Mancha de Lixo do Pacífico, localizada entre o Havaí e a Califórnia, formada pelo Giro do Pacífico Norte.
Nesses locais, o plástico se fragmenta continuamente, aumentando a quantidade de partículas que podem ser levadas ao ar.
Como essas partículas aquecem o planeta
O impacto climático dos microplásticos está ligado ao chamado “forçamento radiativo” — a capacidade de uma substância de alterar o balanço de energia da Terra.
Essas partículas podem absorver e dispersar a luz solar. Quando o efeito predominante é a retenção de calor, contribuem para o aumento da temperatura global.
Estudos anteriores sugeriam que esse impacto era insignificante. No entanto, a nova pesquisa utilizou técnicas mais avançadas, como espectroscopia de alta resolução e simulações atmosféricas, revelando que o potencial de aquecimento é maior do que se estimava.
Em algumas regiões com alta concentração de plástico, como áreas oceânicas específicas, o efeito local pode até superar o do carbono negro.
O que ainda não sabemos
Apesar dos avanços, os cientistas destacam que ainda existem muitas incertezas. Não se sabe exatamente onde os microplásticos estão mais concentrados na atmosfera global, nem como diferentes tamanhos e composições afetam seu comportamento ao longo do tempo.
O pesquisador Zamin Kanji, do ETH Zurich, aponta que o aumento na detecção dessas partículas é preocupante — especialmente porque as técnicas de medição estão evoluindo rapidamente.
Isso sugere que o problema pode ser maior do que se imagina atualmente.
Um problema invisível, mas crescente
Os autores do estudo reconhecem as limitações da pesquisa, mas afirmam que há evidências suficientes para considerar os microplásticos como um novo agente de aquecimento global.
Para Drew Shindell, ainda são necessárias mais medições em diferentes regiões do planeta para entender com precisão a quantidade dessas partículas na atmosfera.
O que já está claro é que a poluição plástica vai além do impacto ambiental visível. Ela também interfere em processos fundamentais do clima terrestre.
Em um cenário de mudanças climáticas aceleradas, até mesmo partículas microscópicas podem fazer diferença — e os microplásticos acabam de entrar oficialmente nessa equação.