O nervosismo antes de uma entrevista, prova ou apresentação pública sempre fez parte da experiência humana. O que mudou recentemente foi a forma de lidar com esse desconforto. Nas redes sociais, cresce a popularidade de um medicamento tradicionalmente usado para o coração, promovido como solução rápida para ganhar confiança. O fenômeno chama atenção de médicos e levanta uma pergunta incômoda: até que ponto essa prática é segura?
Como um remédio cardíaco virou aliado contra o nervosismo

O Sumial — nome comercial do propranolol — é um betabloqueador prescrito há décadas para tratar hipertensão, arritmias e enxaquecas. Seu mecanismo de ação reduz os efeitos físicos da adrenalina no organismo, diminuindo a frequência cardíaca, os tremores e a sudorese.
Justamente por atuar sobre os sinais corporais da ansiedade, o medicamento passou a ser utilizado em situações de nervosismo antecipatório, como falar em público, fazer provas ou participar de entrevistas de emprego.
Profissionais de saúde relatam aumento recente do interesse pelo fármaco em contextos não cardiológicos. O fenômeno é transversal, mas tem sido especialmente observado entre mulheres jovens e de meia-idade.
Nas redes sociais — de vídeos curtos a fóruns informais — o remédio é frequentemente apresentado como uma solução discreta para controlar o “frio na barriga”. O tema também ganhou visibilidade após relatos públicos de celebridades e, segundo apurações de bastidores, até de alguns políticos que recorreriam à medicação antes de discursos importantes.
O risco da banalização e da automedicação
Apesar da fama crescente, especialistas são categóricos: o propranolol não é um medicamento inofensivo. O uso sem avaliação médica pode trazer efeitos adversos relevantes.
A farmacêutica Ana Martínez destaca que entre 5% e 15% dos usuários podem apresentar náuseas, vômitos ou diarreia. Outros efeitos incluem extremidades frias, alterações do sono, pesadelos, fadiga e espasmos.
O maior risco, porém, está na queda excessiva da pressão arterial e da frequência cardíaca — especialmente em pessoas que já têm esses parâmetros naturalmente baixos, perfil comum entre jovens.
O cardiologista Carlos Trujillo alerta que, nesses casos, o paciente pode apresentar tontura, mal-estar e até perda de consciência. Segundo ele, há risco de subestimar o impacto do medicamento quando usado de forma pontual apenas para “controlar os nervos”.
Casos reais reforçam o alerta. Há relatos de pessoas que passaram a usar o remédio com frequência crescente após experiências positivas iniciais, até enfrentarem episódios de desmaio ou efeitos indesejados.
Quando o uso pode fazer sentido — e quando não
Especialistas reconhecem que o propranolol pode ter papel terapêutico legítimo em situações específicas de ansiedade, desde que haja indicação médica clara, avaliação prévia e acompanhamento.
A psiquiatra Rosario Sancho observa que o medicamento pode ser atraente para alguns pacientes justamente por não ser um ansiolítico clássico: ele não provoca sedação nem altera a consciência.
Em certos quadros clínicos — por exemplo, quando benzodiazepínicos não são indicados — o betabloqueador pode ser uma alternativa válida dentro de um plano terapêutico.
O problema surge quando a medicação vira solução rápida para desconfortos cotidianos ou passa a circular informalmente entre amigos e conhecidos.
Para Trujillo, antes de recorrer a qualquer fármaco, o ideal é testar estratégias não farmacológicas, como técnicas de respiração, terapia cognitivo-comportamental e treinamento para situações de exposição.
Um debate que vai além do remédio
O crescimento do uso do propranolol fora das indicações tradicionais levanta uma discussão mais ampla sobre a medicalização de experiências normais da vida.
Especialistas alertam que transformar cada momento de ansiedade em motivo para tomar uma pílula pode aumentar a dependência psicológica de soluções farmacológicas.
Além disso, ainda existem poucos ensaios clínicos robustos que comprovem a eficácia dos betabloqueadores para ansiedade preventiva em populações amplas.
O consenso entre médicos é claro: o medicamento pode ser útil em contextos bem definidos, mas não deve ser tratado como solução universal — e muito menos como produto inocente de redes sociais.
No fim, o verdadeiro risco pode não estar apenas no comprimido em si, mas na facilidade com que o desconforto cotidiano vem sendo transformado em algo a ser medicado.
[Fonte: ABC]