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A pobreza recua na América Latina, mas a distância entre ricos e pobres pouco muda

A pobreza na América Latina atingiu o nível mais baixo da história, segundo novo relatório regional. Mas por trás dos dados positivos, persiste uma concentração de renda extrema que ameaça a sustentabilidade do avanço social. O progresso é real — mas suas bases seguem frágeis.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A imagem social da América Latina acaba de passar por uma transformação significativa. De acordo com o mais recente Panorama Social da América Latina e do Caribe 2025, divulgado pela CEPAL, a região alcançou em 2024 o menor índice de pobreza monetária desde que existem registros comparáveis. O dado representa um marco histórico, mas também expõe um contraste inquietante que desafia qualquer leitura simplista.

Um recorde positivo que parecia distante

Segundo o relatório, a taxa de pobreza na região caiu para 25,5% da população, o equivalente a cerca de 162 milhões de pessoas. Trata-se de uma redução de 2,2 pontos percentuais em relação ao ano anterior — algo raro em um continente onde os avanços sociais costumam ser lentos e instáveis.

A queda da pobreza extrema também chama atenção: recuou para 9,8%, atingindo aproximadamente 62 milhões de pessoas. O principal motor dessa mudança foi o desempenho do México, seguido pelo Brasil, que juntos responderam pela maior parte da melhoria nos indicadores regionais.

Após os fortes retrocessos causados pela pandemia, esses novos números representam um alívio que muitos especialistas já não esperavam ver tão cedo.

Mais do que renda: as condições de vida também melhoraram

O estudo da CEPAL não analisa apenas a pobreza sob a ótica da renda. O relatório também acompanha a pobreza multidimensional, que leva em conta fatores como moradia, saneamento, educação e acesso a serviços básicos.

Nesse indicador, houve uma queda de 34,4% em 2014 para 20,9% em 2024, um avanço expressivo atribuído principalmente à ampliação da infraestrutura urbana e à maior cobertura de serviços essenciais.

Ainda assim, o próprio organismo alerta que a continuidade dessa melhora depende diretamente do crescimento econômico. As projeções para 2025 são modestas: a expectativa é de uma expansão do PIB regional em torno de apenas 2,4%, insuficiente para sustentar transformações estruturais profundas.

Grande Obstáculo
© Unsplash – Random Institute

A desigualdade segue como o grande obstáculo

Apesar da queda histórica da pobreza, a desigualdade permanece entre as mais altas do planeta. O relatório mostra que o 10% mais rico concentra 34,2% de toda a renda, enquanto os 10% mais pobres ficam com apenas 1,7%.

Esse padrão praticamente não se altera ao longo dos anos e coloca a América Latina atrás apenas da África Subsaariana no ranking global de desigualdade. Ou seja: mais pessoas saíram da pobreza, mas a distribuição da riqueza segue extremamente concentrada.

Um avanço real, porém frágil

Boa parte da redução da pobreza está ligada a políticas de renda, aumento do salário mínimo e melhora pontual do desempenho econômico, especialmente no México. No entanto, o restante da região avança em ritmo muito mais lento, o que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade desses resultados no médio prazo.

A CEPAL aponta como prioridades a redução das desigualdades educacionais, a ampliação do emprego formal, o fechamento das brechas de gênero e o fortalecimento dos sistemas de proteção social.

A América Latina, hoje, celebra uma conquista histórica. Mas o desafio central permanece intacto: reduzir a pobreza não basta se a desigualdade estrutural continuar intocada. O verdadeiro teste será transformar esse progresso em uma base sólida — capaz de resistir às próximas crises econômicas.

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