O planeta alcançou conquistas históricas em saúde. Vivemos mais, adoecemos menos e superamos doenças que marcaram o século XX. Porém, um novo relatório da Carga Global de Doenças (GBD), publicado na revista The Lancet, expõe a contradição: embora mulheres vivam em média 76 anos e homens 71, a juventude em países como Estados Unidos, Canadá, México e Brasil sofre um retrocesso marcado por overdoses, depressão e violência.
Um continente que envelhece melhor, mas perde seus jovens
Desde 2011, a mortalidade entre jovens adultos aumentou drasticamente. Em alguns países, a taxa de mortes entre pessoas de 25 a 34 anos cresceu até 50%. São as chamadas “mortes por desesperança” — suicídios, dependência química e alcoolismo, agravados por crises sociais, econômicas e falta de apoio psicológico.
Nos EUA, a epidemia de opioides continua fora de controle: entre 2019 e 2022, mais de 111 mil pessoas morreram por overdose. Na América Latina, o quadro se soma à violência urbana. No Brasil e no México, homicídios entre jovens adultos multiplicam a tragédia. Segundo especialistas, mesmo onde houve avanços sociais, a violência e a desigualdade continuam roubando anos de vida.
O mapa da mortalidade depois da pandemia
As principais causas de morte no mundo voltaram a ser infartos e AVCs, enquanto a covid-19 caiu para a 20ª posição. Mas novas ameaças ganham força: diabetes, transtornos ligados ao consumo de drogas, violência e eventos climáticos extremos.
Os problemas de saúde mental também disparam. Desde 2010, casos de ansiedade cresceram 63% e de depressão 26%. Pesquisadores apontam fatores como redes sociais, bullying digital, desigualdade e até a “ecoansiedade”, o medo diante das mudanças climáticas.
A desigualdade que separa saúde e riqueza
Enquanto europeus vivem mais de 83 anos, em partes da África subsaariana a média não passa de 66. As doenças infecciosas perdem espaço, mas dão lugar a crônicas como obesidade, diabetes e problemas cardíacos — que sistemas de saúde frágeis não conseguem tratar.
O epidemiologista Jaume Marrugat alerta que retrocessos podem vir da desinformação e da resistência a vacinas: “Se perdermos a confiança na imunização, voltaremos a conviver com doenças que já estavam controladas”.
Entre cortes, guerras e abandono
O relatório também denuncia o impacto político. Cortes em programas de ajuda internacional, como os promovidos pelo governo Trump nos EUA, já afetam indicadores globais. Além disso, conflitos reescrevem as estatísticas: na Ucrânia, a guerra elevou a mortalidade juvenil; em Gaza, a expectativa de vida caiu em 30 anos em apenas doze meses.
A epidemia invisível da desesperança
Christopher Murray, diretor do Instituto para Métricas e Avaliação em Saúde (IHME), resume o paradoxo: “Vivemos na melhor época da história para sobreviver… mas não necessariamente para viver”.
A humanidade venceu muitas doenças, mas agora enfrenta uma nova praga: a desesperança. O planeta envelhece mais saudável, enquanto jovens morrem cedo demais — e nenhuma inovação médica será suficiente se a sociedade perder a capacidade de acreditar no futuro.