A terapeuta belga Esther Perel, com 45 anos de experiência clínica, afirma que a traição raramente nasce do desejo sexual. Em vez disso, ela é o reflexo de uma desconexão emocional profunda — uma espécie de “morte afetiva” dentro da relação. Essa distância silenciosa, segundo ela, é o verdadeiro motor da infidelidade.
Quando o vínculo deixa de ser vivo

Em entrevista ao The Telegraph, Perel explicou que, com o tempo, muitos casais entram em um modo automático: cumprem funções domésticas, educam filhos, organizam a vida — mas se desconectam emocional e eroticamente. O que era um romance vibrante se transforma em convivência funcional, e os parceiros deixam de se enxergar.
“Responsabilidade e prazer nem sempre combinam. Os elementos que sustentam o amor não são os mesmos que alimentam o desejo”, explicou a terapeuta. Essa distância cria, muitas vezes, uma sensação de invisibilidade e adormecimento dentro da relação, especialmente em relações de longa data.
É nesse terreno que, segundo Perel, nasce a infidelidade: não como rejeição ao parceiro, mas como uma tentativa desesperada de se sentir vivo novamente.
Como evitar a morte emocional da relação
Embora o esfriamento seja comum com o passar do tempo, Perel afirma que existem formas de evitar essa morte simbólica do vínculo. Uma das principais estratégias é reintroduzir a curiosidade e o mistério dentro da relação — não apenas no sentido sexual, mas também afetivo e cotidiano.
“Pode ser contar histórias interessantes, criar novos rituais, experimentar comidas novas. A ideia é dar ao outro a chance de te ver de um jeito novo, e a si mesmo também”, explica.
Outra dica contraintuitiva, mas poderosa, segundo a terapeuta, é dar espaço. Isso pode incluir férias separados, camas separadas ou até hobbies individuais, com base na ideia de que “o desejo precisa de espaço para existir”.
“Se vocês estão entrelaçados demais, já não são duas pessoas — são uma só. E o desejo morre quando não há distância nem mistério”, alerta.
A traição como ruptura… ou reconexão
Ao contrário do que muitos pensam, Perel defende que a infidelidade não precisa significar o fim de um relacionamento. Em alguns casos, segundo ela, a traição funciona como um alerta que força o casal a enfrentar verdades ignoradas por anos.
“Algumas traições são rompimentos. Mas outras são reconciliações”, disse em entrevista ao The Observer. Em seu livro The State of Affairs: Rethinking Infidelity (“O Estado das Coisas: Repensando a Infidelidade”), Perel argumenta que o divórcio não precisa ser a única resposta a um adultério.
Segundo ela, empurrar casais diretamente para a separação ignora a complexidade emocional e os vínculos familiares envolvidos. “Vidas inteiras estão entrelaçadas em um casamento. As pessoas devem ter o direito de decidir o que fazer com suas escolhas e com suas consequências.”
Escolher ver o outro de novo
Para Perel, o adultério pode ser a faísca que desperta o casal da inércia. “Às vezes, a relação que emerge depois de uma traição é mais honesta, mais forte e mais profunda do que aquela que existia antes”, conclui.
Muito além da moral ou da punição, sua proposta é clara: entender a traição como sintoma — não como sentença.
[ Fonte: Infobae ]