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Tecnologia

A reação contra a IA ganha força — e vem de onde menos se espera

De igrejas a assembleias estaduais, cresce um movimento improvável que questiona o ritmo da inteligência artificial — e o impacto já começa a aparecer na política e na economia.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Em uma manhã gelada de fevereiro, quase 200 pessoas se reuniram em uma igreja no centro de Richmond, nos Estados Unidos. O grupo era diverso — republicanos, democratas, moradores rurais e suburbanos — mas compartilhava a mesma inquietação: o avanço acelerado da inteligência artificial. O encontro simboliza um fenômeno crescente no país, onde a tecnologia mais celebrada do momento também começa a enfrentar uma resistência organizada e cada vez mais vocal.

Uma coalizão improvável contra a expansão da IA

O protesto na Virgínia revelou algo raro no cenário político americano atual: um tema capaz de unir grupos ideologicamente opostos. Ativistas marcharam até o Capitólio estadual para alertar legisladores sobre impactos associados aos data centers que alimentam sistemas de IA — incluindo consumo de energia, uso de água, poluição sonora e efeitos nas comunidades locais.

O sentimento não é isolado. Pesquisas recentes mostram que os Estados Unidos estão entre os países mais céticos em relação à inteligência artificial. Um levantamento do Pew Research Center em 2025 indicou que o número de americanos preocupados com a IA é cinco vezes maior do que o dos entusiasmados.

Entre os temores mais citados estão a perda de criatividade humana, o enfraquecimento de relações pessoais, a disseminação de desinformação e possíveis impactos no senso de propósito das pessoas.

Enquanto executivos de tecnologia defendem que o país disputa com a China a liderança global em IA — uma corrida que consideram estratégica — muitos cidadãos avaliam a tecnologia por efeitos mais imediatos: contas de luz mais altas, risco de perda de empregos e dependência crescente de chatbots, especialmente entre jovens.

Pressão política e novas frentes de batalha

O descontentamento já começa a se traduzir em ação política. Em vários estados, projetos bilionários de data centers enfrentam resistência organizada. Apenas no segundo trimestre de 2025, ativistas ajudaram a travar cerca de US$ 98 bilhões em projetos, segundo dados da Data Center Watch.

Candidatos para as eleições de 2026 passaram a incorporar o tema em suas campanhas. Um exemplo é a deputada estadual de Wisconsin, Francesca Hong, que relata ouvir com frequência eleitores exigindo planos para responsabilizar governos locais e grandes empresas.

Ela critica incentivos fiscais concedidos a data centers e acordos pouco transparentes com autoridades. A preocupação ganhou força após o caso de Mount Pleasant, onde uma fábrica prometida por uma gigante tecnológica acabou convertida em data center após receber mais de US$ 1 bilhão em recursos públicos.

Para Hong, a discussão deixou de ser técnica e se tornou uma questão democrática. Segundo ela, muitos eleitores querem que o estado adote uma postura mais dura diante da expansão dessas estruturas.

Igrejas, reguladores e artistas entram no debate

A inquietação com a IA também se espalhou para além da política tradicional. Líderes religiosos passaram a alertar sobre possíveis impactos sociais e espirituais da tecnologia.

O pastor Michael Grayston, no Texas, vem promovendo fóruns comunitários sobre o tema. Ele afirma temer que chatbots substituam interações humanas profundas, especialmente entre adolescentes. Um estudo de 2025 da Common Sense Media mostrou que metade dos jovens entre 13 e 17 anos já conversa com companheiros de IA ao menos algumas vezes por mês.

No campo regulatório, a questão energética virou foco. Na Geórgia, onde data centers se multiplicam rapidamente, eleitores elegeram novos membros para a comissão que regula serviços públicos após sucessivos aumentos na conta de luz — que muitos associam à expansão dessas instalações.

Já em Hollywood, a resistência assume outra forma. A cineasta Justine Bateman tornou-se uma das vozes mais ativas contra o uso de IA generativa na produção audiovisual. Para ela, a tecnologia pode baratear conteúdo, mas tende a empobrecer a criatividade. Seu festival Credo 23 premia filmes produzidos sem uso de IA.

Até dentro das big techs surgem dissidências

A preocupação não vem apenas de fora do setor. Alguns profissionais que trabalharam diretamente no desenvolvimento de IA começaram a se manifestar publicamente.

O cientista John Palowitch, que entrou no Google em 2017, diz ter ficado desconfortável ao ver a empresa direcionar cada vez mais recursos para seu modelo de IA. Segundo ele, há risco de dependência excessiva dos usuários e de concentração de poder nas grandes plataformas.

Palowitch deixou a companhia em 2024 e passou a atuar em organizações críticas ao uso da tecnologia. Ele representa um grupo crescente de trabalhadores de tecnologia que vêm expondo dúvidas sobre os rumos da indústria.

Um debate que deve pesar nas eleições

Com bilhões de dólares em jogo e impactos cada vez mais visíveis no cotidiano, a inteligência artificial pode se tornar um dos temas decisivos das próximas eleições de meio de mandato nos EUA.

Empresas de tecnologia planejam investir pesadamente para eleger candidatos favoráveis à expansão da IA. Ao mesmo tempo, estrategistas de diferentes espectros políticos alertam para uma possível reação do eleitorado.

O que começou como uma discussão técnica sobre infraestrutura digital evoluiu para um embate mais amplo sobre trabalho, energia, cultura e poder corporativo. E, ao que tudo indica, essa disputa está apenas começando.

[Fonte: Time]

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