A ideia de que nada se cria e nada se perde atravessa a história humana, desde filósofos gregos até os experimentos de Antoine Lavoisier. Mas se a matéria é eterna e formada por átomos que quase nunca desaparecem, por que seres vivos — feitos justamente desses átomos — nascem, envelhecem e morrem? Para responder, a física moderna recorre ao Big Bang, aos colisionadores de partículas e à própria definição de vida.
Átomos: filhos do Big Bang

De acordo com o físico Marco van Leeuwen, do laboratório de física de partículas Nikhef, quase toda a matéria que conhecemos nasceu do Big Bang. No início, tudo era energia pura. À medida que o universo expandiu e esfriou, essa energia se transformou nos primeiros átomos — hidrogênio, hélio e, mais tarde, elementos mais pesados.
Todo átomo possui duas partes principais: um núcleo feito de prótons e neutrons e uma nuvem de elétrons ao redor. Porém, essa estrutura não é tão fixa quanto parece. Prótons podem virar nêutrons e vice-versa, alterando a identidade do átomo. Quando o número de prótons muda, muda também o elemento químico.
Átomos mudam — mas desaparecer é outra história
O exemplo clássico é o do potássio presente nas bananas: alguns de seus átomos se desintegram e viram cálcio, um elemento completamente diferente. Para um químico, isso significa que o “átomo original” deixou de existir. Para um físico, porém, trata-se apenas de uma transformação: o átomo continua sendo “ele”, mesmo que modificado.
Assim surge a questão: um átomo pode desaparecer totalmente?
O enigma do hidrogênio, o átomo mais “imortal”

Para Matthew McCullough, do CERN, o hidrogênio é o melhor candidato à verdadeira imortalidade. Ele é simples — um próton e um elétron — e até hoje jamais foi observado se desintegrando.
Mas a física teórica sugere que, em escalas de tempo inimagináveis, até o hidrogênio pode desaparecer. Modelos indicam que um próton levaria mais de 10³⁴ anos para se desintegrar — um período absurdamente maior que a própria idade do universo.
Na prática, isso significa que, para qualquer propósito humano, os átomos são essencialmente eternos.
Quando um átomo pode realmente “morrer”
A verdadeira destruição de um átomo acontece em condições extremas — e a física moderna já testemunhou isso.
No CERN, o experimento ALICE colide íons de chumbo a energias tão altas que os núcleos literalmente derretem. O resultado é um plasma de quarks e glúons, os blocos fundamentais que formam prótons e nêutrons. Nesse estado, o átomo deixa de existir como tal.
E isso não ocorre só em laboratórios. Raios cósmicos extremamente energéticos também atingem a atmosfera da Terra, destruindo núcleos atômicos de forma natural — embora muito raramente.
Se os átomos podem durar tanto, por que o vivo morre?
É aqui que entra uma distinção crucial, segundo a astrobióloga Betül Kaçar, da Universidade de Wisconsin-Madison: átomos não são vida. Vida é um comportamento emergente que certos arranjos de átomos conseguem exibir.
Um copo de neve é um belo arranjo de moléculas — mas não se reproduz, não evolui, não cria ecossistemas. Bactérias, plantas, animais e humanos sim.
A vida é, nas palavras de Kaçar, “química com memória”: sistemas que conseguem copiar a si mesmos, competir, cooperar, adaptar-se e deixar descendentes.
Essa dinâmica — reprodução e mudança ao longo do tempo — é que torna a vida vulnerável ao desgaste, à mutação e, inevitavelmente, à morte.
Átomos eternos, organismos finitos

Quando morremos, os átomos que nos compõem não desaparecem. Eles retornam ao ambiente, alimentam microrganismos, entram em outros corpos, em plantas, animais, rochas e correntes de ar.
Há mais átomos em um único corpo humano do que estrelas em todo o universo observável — e todos eles continuarão existindo muito depois que nossa espécie deixar de existir.
Em certo sentido, diz Kaçar, isso nos torna “eternos”: não como indivíduos, mas como cadeias de matéria que passam continuamente de uma forma de vida para outra.
Os únicos átomos que questionam sua própria mortalidade
E há algo ainda mais extraordinário: entre todos os arranjos possíveis de átomos no universo, talvez sejamos o único capaz de perguntar por que existimos e por que deixamos de existir.
Somos, como diz a pesquisadora, “um conjunto de átomos que reflete sobre a própria mortalidade” — uma combinação rara e temporária, feita de matéria quase eterna, mas destinada a desaparecer como organismo vivo.
[ Fonte: BBC ]