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Ciência

A surpresa microscópica da NASA: 26 espécies de bactérias desconhecidas foram encontradas em sala limpa

Mesmo nos ambientes mais controlados, a vida dá um jeito. Durante a montagem da sonda Phoenix, que pousou em Marte, cientistas identificaram dezenas de espécies de bactérias nunca antes vistas — e algumas podem resistir até às condições do espaço.
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Tempo de leitura: 3 minutos

No universo das missões espaciais, os menores detalhes podem causar os maiores problemas. É por isso que a NASA investe tanto em ambientes altamente controlados, como as chamadas “salas limpas” — espaços esterilizados onde sondas e naves são montadas com rigor extremo. Mas, aparentemente, nem todo esse cuidado é suficiente para impedir a presença da vida microscópica.

Um grupo de cientistas do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA (JPL), em parceria com instituições da Índia e da Arábia Saudita, descobriu 26 espécies de bactérias até então desconhecidas em uma dessas salas limpas, usadas durante a montagem da missão Phoenix, que partiu rumo a Marte em 2007. Os resultados foram publicados recentemente na revista científica Microbiome.

A missão Phoenix e as bactérias escondidas

A descoberta foi feita durante o estudo de 215 cepas bacterianas coletadas antes, durante e depois da montagem da sonda Phoenix, na sala limpa da NASA. Algumas cepas já estavam presentes no ambiente antes da chegada da sonda, mas outras surgiram ao longo do processo de montagem e testes — e até mesmo após o envio da nave à plataforma de lançamento.

Das 215 cepas analisadas, 53 pertencem a 26 espécies completamente novas para a ciência.

Segundo o autor principal do estudo, Alexandre Rosado, da King Abdullah University of Science and Technology (KAUST), o objetivo da pesquisa era avaliar o risco de que microrganismos extremófilos — capazes de sobreviver em condições extremas — pudessem ser acidentalmente transportados em missões espaciais. “Nosso esforço é essencial para monitorar o risco de contaminação microbiana e evitar a colonização não intencional de outros planetas”, afirmou.

 

Microrganismos quase imbatíveis

As salas limpas da NASA são ambientes hostis à vida: temperatura, umidade e fluxo de ar são rigidamente controlados para manter longe poeira e microrganismos. Ainda assim, as bactérias identificadas sobreviveram e até prosperaram nesse cenário.

E mais: muitas dessas novas espécies apresentaram resistência à descontaminação e à radiação, características que também as tornariam capazes de sobreviver ao ambiente espacial. Seus genomas revelaram sistemas de defesa únicos, com genes associados à reparação de DNA, metabolismo acelerado e desintoxicação de moléculas nocivas.

Ou seja, são verdadeiros sobreviventes — talvez o tipo de organismo que Destiny’s Child celebraria em “Survivor”.

 

Risco espacial, potencial terrestre

Além de alertar para os riscos de contaminação em missões interplanetárias, a pesquisa também abre portas para usos práticos aqui na Terra. Segundo a pesquisadora Junia Schultz, pós-doutoranda da KAUST e autora principal do estudo, os genes encontrados nessas bactérias podem ser usados para aplicações em medicina, conservação de alimentos e até na indústria química.

“Explorar microrganismos que possuem genes de resistência ao estresse pode nos ajudar a desenvolver tecnologias mais robustas em diversas áreas”, destacou.

 

Um desafio para a NASA (e uma oportunidade para a ciência)

O estudo mostra que mesmo com os mais altos padrões de esterilização, ainda há margem para surpresas — o que pode obrigar a NASA a repensar o design de suas salas limpas.

Mais do que um problema, porém, a descoberta dessas novas bactérias também representa uma oportunidade: entender como a vida se adapta, mesmo nos ambientes mais inóspitos, pode ser a chave para descobrir como — e onde — ela poderia existir fora da Terra.

 

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