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Ciência

A Terra está mudando de forma e os satélites detectaram um movimento quase impossível de perceber

Medições realizadas durante quase duas décadas revelaram uma transformação minúscula na superfície sólida da Terra. O fenômeno está ligado à redistribuição de enormes quantidades de massa pelo planeta.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Vista do espaço, a Terra parece praticamente imutável. Mas instrumentos capazes de detectar movimentos de poucos milímetros contam uma história diferente. Um novo estudo analisou quase duas décadas de medições e encontrou um padrão global: determinadas regiões estão subindo enquanto outras descem. O efeito é pequeno demais para ser percebido no cotidiano, mas revela como gelo, oceanos e a própria estrutura do planeta estão conectados.

A Terra nunca foi uma esfera perfeita

A Terra está mudando de forma e os satélites detectaram um movimento quase impossível de perceber
© Pexels

Antes de entender a descoberta, é preciso abandonar uma imagem bastante comum. A Terra não é uma esfera perfeita.

Sua rotação faz com que o planeta seja ligeiramente achatado nos polos e mais largo na região equatorial. Segundo a NASA, o diâmetro terrestre no equador é de aproximadamente 12.756 quilômetros.

Além disso, sua superfície sólida não permanece completamente estática. A crosta responde a movimentos tectônicos, mudanças no manto, variações na rotação e, principalmente, à redistribuição de grandes quantidades de massa.

Foi justamente essa última transformação que Christopher Kotsakis, pesquisador da Universidade Aristóteles de Tessalônica, na Grécia, decidiu investigar.

No estudo publicado em setembro de 2026 no Journal of Geophysical Research: Solid Earth, Kotsakis utilizou medições de uma rede global de estações GNSS, sistemas de posicionamento por satélite suficientemente precisos para detectar minúsculos deslocamentos verticais da superfície.

Os registros analisados cobrem o período entre 1997 e 2015. E foi aí que apareceu um padrão surpreendente.

Os polos estão subindo enquanto o equador desce

No início do período analisado, entre 1997 e 2000, as regiões próximas aos polos apresentavam uma elevação média de aproximadamente 0,5 milímetro por ano.

Em 2015, essa taxa estava próxima de 1 milímetro anual. Ao mesmo tempo, regiões próximas ao equador apresentavam um movimento na direção oposta, com subsidência crescente.

Individualmente, estamos falando de deslocamentos minúsculos. Ninguém perceberá o chão subindo ou descendo por causa deles.

Quando observados em escala planetária, porém, esses movimentos alteram ligeiramente a geometria da Terra sólida. O resultado indicado pelo estudo é que a parte rochosa do planeta está ficando um pouco menos achatada.

Isso não significa que a Terra esteja rapidamente se transformando em uma esfera perfeita. A mudança ocorre em uma escala extremamente pequena e só pode ser identificada graças à precisão das técnicas modernas de geodesia.

O interessante está justamente na causa dessa transformação.

O gelo ajuda a explicar o que está acontecendo

Uma parte importante da resposta está nas enormes massas de gelo localizadas nas altas latitudes.

Camadas de gelo exercem peso sobre a superfície terrestre. Quando essa massa diminui, a carga sobre a crosta também é reduzida. A Terra sólida responde à mudança, produzindo movimentos verticais.

Há ainda outro componente. A água resultante da perda de gelo é redistribuída pelos oceanos, transferindo massa das altas latitudes para outras regiões do planeta. Esse deslocamento modifica as cargas aplicadas sobre a superfície.

O fenômeno está relacionado tanto à perda contemporânea de gelo quanto ao chamado ajuste isostático glacial, a lenta resposta da Terra à retirada das gigantescas camadas de gelo que cobriram partes do planeta durante períodos glaciais anteriores.

A pesquisa, portanto, acrescenta outra dimensão às consequências das mudanças na distribuição de gelo e água. Elas não afetam somente o nível dos oceanos: também deixam uma assinatura mensurável na própria geometria do planeta.

Existe uma aparente contradição escondida na descoberta

A parte mais curiosa surge quando os cientistas comparam a superfície sólida ao campo gravitacional terrestre.

O estudo original publicado no Journal of Geophysical Research: Solid Earth mostra que os dois não estão evoluindo exatamente da mesma maneira. AGU Journals

Enquanto a Terra sólida está ficando ligeiramente menos achatada, medições relacionadas à distribuição de massa e ao campo gravitacional podem indicar uma tendência diferente.

Parece contraditório, mas não é.

A geometria da superfície mostra onde a crosta está subindo ou descendo. Já o campo gravitacional responde à maneira como a massa está distribuída pelo planeta. Se gelo desaparece de uma região e essa massa reaparece na forma de água em outra, as duas medições podem evoluir de maneiras distintas.

Também é importante não confundir isso com o famoso “geoide em forma de batata” frequentemente compartilhado nas redes sociais. O geoide é uma representação de variações do campo gravitacional, não uma fotografia exagerada do formato físico da superfície terrestre.

O mais impressionante não é a deformação

Nenhuma dessas mudanças fará a Terra parecer visivelmente diferente nas próximas décadas. Os movimentos observados são da ordem de frações de milímetros a milímetros por ano.

A descoberta também não significa que todos os pontos dos polos estejam literalmente subindo na mesma velocidade ou que todo o equador esteja afundando uniformemente. O estudo identifica uma tendência global obtida a partir de medições geodésicas distribuídas pelo planeta.

O aspecto extraordinário está em nossa capacidade de detectar algo tão pequeno.

Satélites, estações GNSS e medições do campo gravitacional transformaram a Terra em um sistema que pode ser acompanhado quase em tempo real. Água, gelo, crosta, manto e rotação deixam sinais que instrumentos modernos conseguem separar e comparar.

A Terra sempre esteve em movimento. A novidade é que agora conseguimos observar até suas deformações mais discretas e perceber que o derretimento de gelo em uma extremidade do planeta pode deixar uma assinatura física milhares de quilômetros adiante.

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