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Ciência

A Terra muda de forma todos os anos — mas a transformação é pequena demais para percebermos

Água, neve, gelo e até a atmosfera redistribuem enormes quantidades de massa pelo planeta, deslocando seu centro em alguns milímetros ao longo do ano
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Tempo de leitura: 3 minutos

A Terra pode parecer completamente sólida sob nossos pés, mas está longe de ser uma esfera rígida e imutável. Todos os anos, enormes quantidades de água, gelo e massa atmosférica se deslocam pelo planeta, provocando pequenas mudanças em sua forma e até na posição de seu centro de massa.

Essas alterações são impossíveis de perceber no cotidiano. Algumas medem apenas poucos milímetros. Para sistemas modernos de posicionamento, porém, essa diferença minúscula pode ser importante.

O centro da Terra se move alguns milímetros

Planeta Terra
© Hartono Creative Studio- Unsplash

Uma pesquisa liderada por Donald Argus, cientista do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, analisou o movimento anual do chamado geocentro.

O geocentro representa o centro de massa da Terra e funciona como uma referência fundamental para medições geodésicas realizadas a partir do espaço.

O problema é que a massa do planeta não permanece distribuída exatamente da mesma maneira durante todo o ano.

Chuvas, neve, gelo, oceanos e atmosfera transferem enormes quantidades de matéria entre diferentes regiões. Como consequência, o centro de massa sofre pequenas oscilações em relação ao centro geométrico da Terra.

Estamos falando de movimentos de poucos milímetros. Mesmo assim, eles podem ser detectados pelos instrumentos científicos atuais.

Satélites conseguem enxergar o que nós não percebemos

Para medir deslocamentos tão pequenos, os pesquisadores combinaram diferentes tecnologias.

Entre elas estão medições a laser dos satélites LAGEOS 1 e LAGEOS 2, além de informações provenientes de redes GPS e satélites em órbita baixa.

Como esses equipamentos orbitam levando em consideração o campo gravitacional terrestre, os cientistas podem comparar suas trajetórias com estações localizadas na superfície.

A técnica permite calcular como o centro de massa se desloca ao longo do tempo.

Também existe outro fenômeno acontecendo simultaneamente. Conforme grandes quantidades de massa mudam de lugar, a crosta terrestre responde elasticamente à alteração da carga.

Isso provoca movimentos verticais extremamente pequenos na superfície.

Portanto, dizer que a Terra muda de forma não significa que continentes estejam subindo e descendo de maneira perceptível. São alterações minúsculas detectadas apenas por instrumentos de alta precisão.

Neve empurra o centro de massa em direção ao Polo Norte

Um dos principais responsáveis pelas oscilações é o ciclo da água.

Por volta de março, grandes quantidades de neve acumuladas durante o inverno sobre a América do Norte e a Eurásia fazem com que o centro de massa terrestre se desloque aproximadamente 3 milímetros em direção ao Polo Norte.

Pouco depois, outro fenômeno entra em cena.

Em abril, as chuvas na bacia amazônica podem armazenar aproximadamente 2.400 gigatoneladas de água na região. Essa concentração temporária de massa desloca o geocentro cerca de 2,2 milímetros em direção à América do Sul.

Os números parecem insignificantes, mas representam a movimentação de quantidades gigantescas de matéria.

Oceanos e atmosfera também entram nessa equação

Como a ciência já consegue transformar o mar em água potável
© Pexels

A água continental é apenas uma parte do mecanismo.

Mudanças sazonais no nível dos oceanos redistribuem grandes volumes de água pelo planeta. A própria atmosfera também participa, já que diferenças de temperatura e pressão modificam a distribuição da massa de ar.

Para reconstruir esses movimentos, os pesquisadores utilizaram ainda informações meteorológicas do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo e observações gravitacionais da missão GRACE Follow-On.

Os novos cálculos também corrigiram estimativas anteriores.

Segundo Argus, o deslocamento anual do centro de massa da Terra parece ser aproximadamente metade do que os cientistas estimavam oito anos atrás.

Alguns milímetros podem fazer diferença

Para uma pessoa caminhando pela superfície, nada disso é perceptível. Para tecnologias que precisam determinar posições com extrema precisão, a história é diferente.

Conhecer exatamente a localização do centro de massa terrestre ajuda a melhorar sistemas internacionais de referência usados em geodésia, cartografia e posicionamento por satélite.

É um exemplo curioso de como um planeta aparentemente estável permanece em constante movimento.

A cada estação, trilhões de toneladas de água, gelo e ar mudam de lugar. Nós não sentimos absolutamente nada — mas instrumentos em órbita conseguem observar a Terra se deformando e seu centro se deslocando alguns milímetros.

 

[ Fonte: La República ]

 

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