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Ciência

Alerta sobre a Falta de Segurança em Laboratórios Chineses que Pesquisam Vírus com Potencial Pandêmico

Dois renomados epidemiologistas alertaram para os riscos associados à pesquisa de vírus perigosos em laboratórios chineses que não atendem aos mais altos padrões internacionais de segurança. Em um artigo publicado no The New York Times, os especialistas destacaram a necessidade de normas mais rígidas para evitar possíveis ameaças globais à saúde.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Um Novo Vírus e uma Nova Preocupação

Os epidemiologistas W. Ian Lipkin e Ralph Baric, especialistas na prevenção de pandemias, manifestaram preocupação com as pesquisas realizadas sobre um novo coronavírus identificado em morcegos, denominado HKU5-CoV-2. Esse patógeno, descoberto por pesquisadores chineses do Instituto de Virologia de Wuhan, do Laboratório de Guangzhou e da Academia de Ciências de Guangzhou, pertence à família dos merbecovírus, à qual também pertence o vírus causador da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), conhecido por sua alta letalidade em humanos.

Estudos de laboratório revelaram que o HKU5-CoV-2 é capaz de infectar células humanas através do receptor ACE2, o mesmo mecanismo utilizado pelo SARS-CoV-2, responsável pela pandemia de COVID-19. Embora ainda não haja evidências de transmissão entre humanos, os cientistas alertam para a necessidade de monitoramento rigoroso desse vírus, uma vez que sua capacidade de adaptação e disseminação pode representar uma ameaça futura.

Pesquisas com Alto Risco e Baixa Segurança

Lipkin e Baric expressaram preocupação com os protocolos de segurança utilizados nos estudos sobre o HKU5-CoV-2. De acordo com eles, a pesquisa inicial foi conduzida sem o cultivo do vírus vivo, utilizando apenas simulações computacionais e testes laboratoriais com fragmentos do genoma viral. No entanto, os pesquisadores chineses posteriormente realizaram experimentos com o vírus infeccioso completo em um laboratório classificado como BSL-2 plus — um nível de biossegurança inferior ao recomendado para patógenos com potencial pandêmico.

Os especialistas afirmam que esse tipo de pesquisa deveria ser conduzido exclusivamente em laboratórios com certificação internacional de biossegurança máxima. “Trabalhos com vírus que podem representar riscos para a saúde global devem ser realizados apenas em instalações altamente seguras, com profissionais capacitados e comprometidos com os mais rigorosos protocolos”, enfatizaram.

A Falta de Padrões Globais de Segurança

O debate sobre a segurança em pesquisas com patógenos altamente infecciosos não é novo, mas tem se intensificado nos últimos anos. A falta de um padrão internacional uniforme para a condução desses estudos permite que experimentos de alto risco sejam realizados em condições menos rigorosas em determinados países.

Lipkin e Baric argumentam que, embora a pesquisa com o HKU5-CoV-2 tenha seguido os regulamentos nacionais chineses, isso não significa que as precauções adotadas tenham sido suficientes. Eles destacam que a classificação BSL-2 plus, onde o experimento foi realizado, não é formalmente reconhecida por órgãos internacionais como os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). Segundo os especialistas, um vírus com potencial pandêmico deve ser estudado, no mínimo, em laboratórios de nível BSL-3 ou BSL-4, que oferecem medidas de contenção mais rigorosas.

Níveis de Segurança em Laboratórios

Os laboratórios são classificados em quatro níveis de biossegurança, conforme os riscos representados pelos agentes patogênicos que estudam:

  • BSL-1: utilizado para microrganismos sem risco significativo para humanos;
  • BSL-2: adequado para patógenos moderadamente perigosos, que podem causar doenças leves;
  • BSL-3: necessário para agentes infecciosos transmitidos pelo ar, que podem causar doenças graves;
  • BSL-4: reservado para patógenos altamente letais, sem tratamentos eficazes disponíveis, como o vírus Ebola.

Lipkin e Baric explicam que os laboratórios BSL-4 são aqueles frequentemente retratados em filmes, com cientistas vestindo trajes de proteção herméticos e passando por câmaras de descontaminação antes de sair das instalações. Já os laboratórios BSL-3, embora menos restritivos, exigem acesso controlado, equipamentos de proteção completos e sistemas de filtragem do ar.

A principal preocupação dos especialistas é que o HKU5-CoV-2 tenha sido manipulado em um laboratório que não atende a essas normas de segurança. Eles argumentam que as decisões sobre quais níveis de precaução adotar geralmente cabem ao cientista principal do estudo e ao comitê de biossegurança da instituição. Isso significa que, em muitos casos, a supervisão externa é limitada, o que pode aumentar os riscos de acidentes laboratoriais e vazamento de vírus para o ambiente.

O Papel da OMS na Regulação da Pesquisa com Vírus Perigosos

A falta de regulamentação global sobre a pesquisa com patógenos de alto risco representa um desafio urgente para a comunidade científica e os governos. Lipkin e Baric defendem que a Organização Mundial da Saúde (OMS) deve assumir um papel mais ativo na definição de padrões internacionais de biossegurança. “Como principal entidade global de saúde pública, a OMS deveria estabelecer diretrizes rigorosas para esse tipo de pesquisa, garantindo que experimentos com vírus perigosos sejam conduzidos com o máximo de precaução”, destacam.

Além da OMS, os especialistas sugerem que financiadores de pesquisas científicas, tanto públicos quanto privados, exijam comprovação de que os estudos sigam normas de biossegurança reconhecidas mundialmente. As revistas científicas também poderiam desempenhar um papel fundamental ao adotar critérios mais rígidos antes de publicar estudos que envolvam vírus com potencial pandêmico.

O Equilíbrio entre Avanço Científico e Segurança Global

A pesquisa com patógenos altamente infecciosos é essencial para o avanço da ciência e para a preparação contra futuras pandemias. No entanto, segundo Lipkin e Baric, é fundamental que esse tipo de estudo seja realizado dentro de padrões de segurança que minimizem os riscos de acidentes e disseminação de novos vírus.

Diante da crescente preocupação com novas ameaças virais, a adoção de protocolos internacionais padronizados se torna cada vez mais urgente. A segurança da pesquisa científica não deve ser uma decisão isolada de laboratórios ou países individuais, mas sim uma prioridade global que garanta a proteção da saúde pública em todo o mundo.

 

Fonte: Infobae

 

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