Cientistas há anos anunciam um avanço revolucionário na tecnologia de fertilidade, e o órgão regulador do Reino Unido quer estar preparado para esse momento. Quando ele chegar, a tecnologia de gametas in vitro (IVG) poderá transformar a forma como as pessoas têm filhos, permitindo que casais do mesmo sexo tenham filhos biológicos, que pessoas mais velhas possam conceber e até a criação de crianças com material genético de quatro ou mais doadores diferentes.
Segundo o The Guardian, membros da Human Fertility and Embryology Authority (HFEA), o órgão regulador de fertilidade do Reino Unido, se reuniram em 22 de janeiro para discutir a atualização das leis de fertilidade do país. A HFEA é uma entidade independente responsável por licenciar, monitorar e inspecionar clínicas de fertilidade no Reino Unido.
O potencial disruptivo da IVG
Grande parte da reunião foi dedicada à discussão sobre gametas in vitro (IVG), uma tecnologia que, segundo os cientistas, está prestes a se tornar realidade. A IVG permite criar óvulos ou espermatozoides a partir de qualquer célula do corpo humano — por exemplo, uma célula da pele poderia ser transformada em um espermatozoide com o material genético de uma pessoa.
Essa técnica é considerada o “Santo Graal” do tratamento de fertilidade. Com ela, pessoas que atualmente não podem contribuir geneticamente para a formação de um filho teriam essa possibilidade. Além de ajudar casais mais velhos, a IVG permitiria que casais do mesmo sexo gerassem filhos com material genético combinado.
Multiparentalidade e reprodução solo
Entre as possibilidades discutidas pela HFEA estão:
- Multiparentalidade (“multiplex parenting”): Crianças geradas com material genético de mais de dois pais. Com IVG, seria possível criar gametas a partir de múltiplos doadores, permitindo que um filho tivesse material genético de quatro pessoas, que tecnicamente seriam seus “avós genéticos”.
- Reprodução solo (“solo parenting”): Uma pessoa poderia gerar um filho usando gametas derivados exclusivamente de suas próprias células — tanto o óvulo quanto o espermatozoide.
No entanto, a HFEA alertou que gerar uma criança com gametas provenientes de uma única pessoa traz alto risco de doenças genéticas e não seria eticamente recomendável.
Avanços científicos até o momento
Durante a reunião, Rebbeca Taylor, gerente de políticas científicas da HFEA, explicou que a IVG já foi realizada com sucesso em camundongos, mas ainda não em primatas ou seres humanos.
“Ainda não há consenso entre os cientistas sobre o quão distante estamos dessa tecnologia,” disse Taylor. “Em 2021, pesquisadores nos EUA previram que conseguiriam realizar IVG em humanos até 2023 — mas não atingiram essa meta.”
No entanto, avanços promissores já ocorreram:
- Em experimentos, cientistas criaram camundongos saudáveis a partir de dois machos, usando a técnica de IVG.
- Os filhotes nasceram saudáveis, e os resultados indicam que não há motivo para que a técnica não funcione também em primatas e humanos, segundo os pesquisadores.
Impactos e dilemas éticos
A chegada da IVG revolucionaria conceitos fundamentais sobre concepção, genética e filiação. Até hoje, a humanidade se reproduziu da mesma forma por milênios, e a fertilização in vitro (FIV), apesar de ter mudado esse processo, tem apenas cerca de 50 anos.
Essa nova tecnologia pode redefinir o que significa ser pai, mãe e filho:
- Casais do mesmo sexo poderiam ter filhos com material genético combinado.
- Pessoas inférteis ou em idade avançada poderiam conceber filhos biológicos.
- Novas configurações familiares, como filhos com quatro pais biológicos, poderiam se tornar possíveis.
O papel do governo: regulação e limites éticos
A HFEA realizou essa reunião para iniciar o debate sobre como o governo deve regular a IVG. Entre as questões estão:
- Quem terá acesso à tecnologia?
- Como garantir a segurança das crianças geradas por IVG?
- Quais limites éticos devem ser estabelecidos?
Embora a conferência tenha tido um tom técnico, o assunto é profundamente importante. A IVG é uma inovação que tem potencial para transformar a reprodução humana em todo o mundo, levantando questões éticas, jurídicas e sociais que precisam ser debatidas antes que a ciência cruze esse novo limiar.
A revolução pode ainda não ter chegado — mas está definitivamente no horizonte.