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Ciência

Algo gigantesco está deformando a crosta de Mercúrio — e o culpado pode ser o Sol

Rachaduras, fraturas e escarpas gigantes se espalham pela superfície de Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol. Agora, cientistas descobriram que a poderosa gravidade solar pode estar por trás dessas marcas intrigantes. A descoberta muda o que sabíamos sobre como planetas se deformam ao longo do tempo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Mercúrio sempre foi um planeta peculiar: pequeno, escaldante e castigado pela proximidade extrema com o Sol. Sua superfície parece ter sofrido com forças gigantescas, marcada por fraturas e deformações que intrigam os cientistas há décadas. Agora, um novo estudo propõe uma explicação surpreendente: a força gravitacional do próprio Sol pode ser a responsável por esculpir o planeta de forma tão dramática.

 

A superfície torturada de Mercúrio

Apesar de ser o menor planeta do sistema solar, Mercúrio apresenta um cenário geológico impressionante: falhas profundas, escarpas íngremes e rachaduras extensas. Durante muito tempo, os cientistas acreditaram que essas cicatrizes resultavam exclusivamente do resfriamento do planeta após sua formação, quando seu interior quente começou a encolher, causando o enrugamento da crosta.

Mas uma pesquisa recente conduzida por cientistas da Universidade de Berna, na Suíça, sugere que essa explicação não conta toda a história. Usando modelos físicos para simular a evolução do planeta ao longo de 4 bilhões de anos, os pesquisadores descobriram que as forças de maré causadas pelo Sol podem ter desempenhado um papel crucial no surgimento das estruturas tectônicas de Mercúrio.

 

A influência poderosa do Sol

Diferente da Terra, Mercúrio tem uma órbita altamente elíptica e peculiar: ele completa uma volta ao redor do Sol a cada 88 dias terrestres e gira três vezes sobre seu eixo a cada duas órbitas. Isso gera variações intensas nas forças de maré que o Sol exerce sobre o planeta — forças essas que, até então, eram consideradas pequenas demais para causar deformações significativas.

Segundo a autora principal do estudo, Liliane Burkhard, do Instituto de Física da Universidade de Berna, essas forças variáveis podem deixar marcas visíveis na superfície do planeta. “Vemos padrões tectônicos em Mercúrio que indicam que há mais coisas acontecendo além do simples resfriamento e contração global”, explicou.

 

Tensão acumulada ao longo de bilhões de anos

Os modelos criados pelos cientistas demonstram que, embora as forças de maré não sejam fortes o suficiente para provocar falhas por conta própria, elas influenciam a direção das tensões na crosta de Mercúrio. Isso significa que, com o tempo, essas tensões podem ter guiado a orientação das fraturas e falhas observadas hoje.

A pesquisa abre um novo campo de estudo para entender como forças externas — além dos processos internos — podem moldar planetas rochosos. Burkhard afirma que “entender como um planeta como Mercúrio se deforma ajuda a compreender a evolução de corpos planetários ao longo de bilhões de anos.”

 

Missão BepiColombo e o futuro das descobertas

Para aprofundar ainda mais esse conhecimento, os cientistas esperam obter dados valiosos da missão BepiColombo, uma colaboração entre a Agência Espacial Europeia (ESA) e a agência espacial japonesa JAXA. Lançada em 2018, essa é apenas a terceira missão a visitar Mercúrio, que é notoriamente difícil de alcançar por causa da intensa gravidade solar.

Com os instrumentos da BepiColombo, os pesquisadores esperam observar de perto as estruturas tectônicas do planeta e comprovar, com mais detalhes, o papel das forças de maré solares em sua formação geológica.

 

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