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Ciência

Alimentação certa salva vidas no tratamento de transtornos alimentares

A recuperação de um transtorno alimentar não começa no espelho — começa no prato. Em um país onde até 15 milhões de brasileiros enfrentam algum tipo de distúrbio alimentar, entender o papel da nutrição virou algo tão importante quanto a psicoterapia ou o acompanhamento psiquiátrico. E, segundo especialistas, é justamente essa nutrição que decide o rumo da recuperação.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Entenda por que a alimentação muda tudo

A Organização Mundial da Saúde estima que 4,7% dos brasileiros sofrem de transtorno de compulsão alimentar — quase o dobro da média mundial. E esse é só um dos diagnósticos possíveis. Anorexia, bulimia, TCA, TARE, alotriofagia e ruminação compõem o conjunto de transtornos listados no Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais.

Todos eles têm algo em comum: afetam o corpo e a mente ao mesmo tempo. Vêm acompanhados de desnutrição, queda de massa muscular, alterações metabólicas e impacto direto no humor e na cognição. Por isso, profissionais são unânimes: alimentação adequada é peça central da recuperação.

A nutróloga comportamental Esthela Oliveira explica isso de forma simples: comida é comunicação química. Cada vitamina, gordura ou aminoácido modula neurotransmissores como serotonina e dopamina — responsáveis por humor, foco e regulação emocional. Não é metáfora: é bioquímica.

Nutrientes que fazem diferença real

Alimentação certa salva vidas no tratamento de transtornos alimentares
© Pexels

Alguns nutrientes aparecem sempre nas recomendações clínicas:

  • Ômega-3
  • Complexo B
  • Magnésio, zinco e ferro
  • Triptofano

Corrigir carências desses elementos reduz fadiga, melhora estabilidade emocional e diminui a chamada “névoa mental” — aquela dificuldade de raciocínio ou concentração muito comum em quadros avançados.

Outro destaque é a microbiota intestinal, responsável por grande parte da serotonina produzida no corpo. Dietas ricas em fibras, alimentos minimamente processados e probióticos ajudam a estabilizar emoções e regular saciedade. Já ultraprocessados com excesso de açúcar causam picos de glicose, quedas bruscas de humor e alimentam episódios de compulsão.

A nutricionista Ana Cristina Pereira reforça que o cérebro precisa de combustível de qualidade. Nutrientes como vitamina D e ômega-3 já têm ampla evidência associada à redução de sintomas ansiosos e depressivos — comuns em transtornos alimentares.

Quando o transtorno ultrapassa o prato

O nutricionista Bruno Correia chama atenção para o impacto da comida nas áreas cerebrais de recompensa e autocontrole. Segundo ele, dietas restritivas — popularizadas por padrões estéticos e redes sociais — aumentam drasticamente o risco de compulsão. “A curva de aprendizado precisa substituir a punição”, explica.

Na dimensão emocional, a psicóloga Rejane Sbrissa lembra que psicoterapia sozinha não resolve. Sem rotina alimentar, sem planejamento e sem a recuperação da sensação de saciedade, gatilhos emocionais permanecem ativos. O tratamento só funciona quando nutrição, psiquiatria e psicologia trabalham juntas.

A trajetória de “Jéssica”, 22 anos, mostra o que acontece quando o transtorno evolui sem diagnóstico precoce. Começou a vomitar aos 12 anos, perdeu peso até chegar a 32 kg e precisou de internação por desnutrição severa. Hoje vive com sequelas. “Aprendi a conviver melhor, mas não digo que estou curada”, diz.

Fatores sociais que ninguém pode ignorar

Os transtornos não vivem só no corpo — também vivem no contexto. A insegurança alimentar, cada vez mais comum no Brasil, aumenta em três a cinco vezes o risco de desenvolver distúrbios. Quando falta comida, o corpo reage armazenando mais, buscando calorias rápidas e formando comportamentos semelhantes aos de dietas extremas.

A falta de equipes multidisciplinares no SUS dificulta ainda mais o tratamento. É nesse cenário que atua a Associação Brasileira de Transtornos Alimentares (AstralBR), oferecendo psicoeducação, orientação e grupos de apoio. Segundo Renata Rennó, cerca de 60 pessoas têm acompanhamento direto e milhares acessam conteúdo pelas redes.

Veja como a recuperação acontece na prática

O tratamento inclui:

  • Reintrodução gradual de calorias
  • Exames laboratoriais constantes
  • Suplementação quando necessária
  • Reintrodução de texturas e variedades
  • Fortalecimento da microbiota com prebióticos e probióticos
  • Rotinas alimentares estáveis

O objetivo é reconstruir o corpo para que o cérebro tenha condições de responder ao tratamento psicológico. Sem energia, sem nutrientes e sem estabilidade metabólica, terapia não avança.

Para Jéssica, recuperar a relação com a comida foi um marco. “Hoje eu me permito comer pizza e hambúrguer, mas sei dos meus limites”, relata. É um equilíbrio delicado, construído aos poucos.

O que esta história nos alerta

Transtornos alimentares exigem tratamento multidisciplinar, políticas públicas, educação nutricional desde cedo e, acima de tudo, acolhimento. A nutrição não é coadjuvante: é base da recuperação física e emocional. E, em um país marcado por insegurança alimentar e padrões estéticos extremos, entender esse papel é essencial.

Cuidar da alimentação é cuidar da saúde mental. E, para quem enfrenta um transtorno, esse cuidado pode significar a chance real de reconstruir a própria vida.

[Fonte: Correio Braziliense]

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