Ela não tinha diagnóstico, nem sintomas, nem exames alterados. Ainda assim, entrou em um centro cirúrgico para tomar uma decisão que poucas pessoas conseguem imaginar. O que motivou essa escolha não foi o medo imediato da doença, mas uma combinação de genética, história familiar e informação médica. A trajetória dessa mulher revela como ciência, prevenção e emoção se cruzam quando o risco não é uma hipótese distante, mas uma possibilidade real.
Um histórico que mudou tudo
A primeira ruptura na sensação de normalidade veio anos antes da cirurgia. Em 2018, a avó de Jéssica Mras morreu de câncer de pâncreas após um diagnóstico tardio. Três anos depois, a mãe recebeu a notícia de um câncer de ovário, iniciando um tratamento longo, exaustivo e cheio de incertezas.
Durante o acompanhamento médico, surgiu uma suspeita: aqueles tumores poderiam ter uma origem genética comum. Um exame confirmou a hipótese. A mãe de Jéssica tinha uma mutação no gene BRCA2, associada a maior risco de câncer de mama, ovário, pâncreas e próstata.
Com o resultado em mãos, veio a orientação automática: parentes de primeiro grau deveriam ser testados. A tia não tinha a mutação. Jéssica, sim.
A reação não foi de pânico. Não houve choro nem desespero. O sentimento foi mais prático do que emocional. Agora, ela precisava decidir o que fazer com aquela informação.
O que a genética realmente significa
Os genes BRCA1 e BRCA2 são responsáveis por reparar danos no DNA. Quando funcionam corretamente, ajudam a evitar que células defeituosas se transformem em tumores. Quando sofrem mutações, esse mecanismo falha, aumentando o risco de câncer.
No caso do BRCA2, o risco de câncer de mama ao longo da vida pode chegar a cerca de 45%. Isso não significa que a doença seja inevitável, mas muda completamente a forma como médicos e pacientes pensam em prevenção.
Ter a mutação não é uma sentença, mas é um alerta. Ela exige vigilância constante, exames frequentes e decisões difíceis. Algumas mulheres optam apenas pelo acompanhamento rigoroso. Outras escolhem intervenções mais drásticas.
Jéssica quis entender todas as possibilidades antes de decidir.
Entre observar e agir
Após o diagnóstico genético, ela foi encaminhada a um centro especializado em doenças da mama. Lá, ouviu as duas principais opções: vigilância ativa ou cirurgia preventiva.
A vigilância envolve ressonâncias magnéticas regulares, exames frequentes e atenção constante a qualquer alteração. A cirurgia, por outro lado, remove quase todo o tecido mamário antes que o câncer possa surgir.
A decisão não foi imediata. Jéssica conversou com mastologistas, oncologistas e cirurgiões plásticos. Perguntou sobre riscos, benefícios, limites e expectativas reais.
O que pesou mais foi a experiência da mãe. Ela sabia que, se um dia tivesse câncer, provavelmente passaria pela mesma cirurgia. Preferiu antecipar esse caminho, reduzindo drasticamente o risco.
A escolha não eliminaria 100% das chances, mas diminuiria de forma significativa a probabilidade de desenvolver a doença.
O impacto da cirurgia
A mastectomia bilateral foi realizada em agosto de 2024. Jéssica optou por preservar os mamilos, uma técnica segura em cirurgias preventivas quando não há doença próxima à região.
O pós-operatório foi mais difícil do que ela imaginava. Nos primeiros dias, precisava de ajuda para quase tudo: sentar, levantar os braços, tomar banho. A dor fazia parte da rotina.
Quando se viu no espelho pela primeira vez, o choque foi inevitável. Um tórax plano, cicatrizes longas e um corpo que não reconhecia como seu.
Mesmo sabendo o que esperar, a imagem causou insegurança. Surgiram dúvidas sobre a decisão. O processo não tinha nada de estético. Era físico, emocional e profundamente transformador.
A reconstrução não aconteceu de imediato. Antes, foi necessário usar expansores — dispositivos que preparam a pele para receber próteses definitivas. Foram meses de desconforto, espera e adaptação à nova imagem corporal.
Um achado inesperado
Após a cirurgia, o tecido retirado foi analisado em laboratório. Alguns dias depois, Jéssica recebeu uma ligação dos médicos.
O laudo mostrava a presença de células atípicas, consideradas pré-cancerígenas. Ainda não era câncer, mas era um sinal de que o processo já havia começado silenciosamente.
A frase foi direta: ela havia feito a cirurgia no momento certo.
Se tivesse esperado mais, provavelmente teria enfrentado o mesmo procedimento junto com quimioterapia, radioterapia e todo o peso de um tratamento oncológico.
A notícia não apagou o sofrimento do processo, mas deu outro sentido à escolha.
As decisões que ainda virão
A mutação no BRCA2 também aumenta o risco de câncer de ovário. A retirada preventiva dos ovários é uma possibilidade futura, mas envolve consequências importantes: menopausa precoce, impactos hormonais, ósseos e cardiovasculares.
No caso de Jéssica, os médicos sugeriram que a decisão pode ser tomada cerca de dez anos antes da idade em que a mãe recebeu o diagnóstico. Até lá, o foco é acompanhamento rigoroso.
A maternidade também virou um dilema. Existe 50% de chance de transmitir a mutação para os filhos. Há alternativas, como congelamento de óvulos e seleção genética de embriões, mas cada uma envolve custos, ética e reflexões profundas.
Nada disso é simples. Tudo exige tempo, informação e apoio.
Escolher antes da doença
Casos como o de Jéssica ficaram mais conhecidos após o relato público de Angelina Jolie, que também fez uma mastectomia preventiva ao descobrir uma mutação genética.
Desde então, mais mulheres passaram a buscar testes, aconselhamento genético e informação. A genética não define o destino, mas antecipa escolhas.
Para Jéssica, a cirurgia não foi um ato de coragem heroica. Foi uma estratégia de cuidado.
O medo, as dúvidas e o futuro ainda existem. Mas agora, eles são enfrentados com mais controle, menos incerteza e uma nova relação com o próprio corpo.
[Fonte: G1 – Globo]