Pular para o conteúdo
Mundo

Após restringir o Telegram, a Rússia mira agora o WhatsApp

Após impor limites a um mensageiro popular, Moscou avança contra outra plataforma global. O movimento levanta alertas sobre vigilância, censura e o futuro da comunicação privada na Rússia.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

A guerra na Ucrânia redefiniu fronteiras — inclusive as digitais. Nos últimos anos, a Rússia vem redesenhando seu ecossistema online com leis mais duras e plataformas controladas pelo Estado. Agora, um novo passo sinaliza até onde o Kremlin pretende ir para consolidar esse controle. O alvo da vez é um aplicativo presente no cotidiano de milhões de pessoas, e a justificativa oficial esconde um debate mais amplo sobre privacidade, segurança e poder.

O bloqueio que se aproxima

Após restringir o Telegram, a Rússia mira agora o WhatsApp
© https://x.com/BRICSinfo/

A empresa responsável pelo mensageiro WhatsApp afirmou que a Rússia tentou “bloquear totalmente” o acesso ao aplicativo no país. A medida, segundo críticos e organizações de direitos civis, faz parte de uma estratégia para ampliar a vigilância estatal e restringir a comunicação privada em meio ao endurecimento contra dissidências.

A reação veio após o governo russo intensificar a promoção de um aplicativo doméstico, apoiado pelo Estado, apresentado como alternativa oficial às plataformas estrangeiras. Em comunicado público, o WhatsApp classificou essa solução nacional como uma ferramenta de vigilância governamental e alertou para o impacto de isolar mais de 100 milhões de usuários de comunicações seguras.

O avanço contra o WhatsApp não surpreende totalmente. Desde a invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022, diversas plataformas da Meta foram banidas no país. Facebook e Instagram, por exemplo, só podem ser acessados via VPN. Há anos circulam relatos de que o WhatsApp seria o próximo da lista — agora, esses rumores ganham contornos concretos.

A justificativa oficial e o jogo de pressão

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou à mídia estatal que a empresa controladora do WhatsApp não estaria cumprindo a legislação russa. Segundo ele, o bloqueio poderia ser evitado caso houvesse disposição para negociar e se adequar às regras locais.

A mensagem é clara: alinhar-se às exigências do Estado ou perder acesso ao mercado russo. Na prática, essas exigências envolvem armazenamento de dados no território nacional e cooperação com agências de segurança. Para empresas estrangeiras, aceitar essas condições significa abrir mão de princípios básicos de privacidade — algo que muitas se recusam a fazer.

Telegram também entra na mira

A ofensiva não se limita a um único aplicativo. Nos últimos dias, a Rússia começou a restringir o acesso ao Telegram, conforme confirmado por seu fundador, Pavel Durov. Durov afirmou que o objetivo do governo é forçar os cidadãos a migrar para uma plataforma estatal, desenhada para vigilância e censura política.

Em declarações públicas, ele comparou a estratégia russa à tentativa feita pelo Irã anos atrás, quando o país tentou banir o Telegram para empurrar usuários para um mensageiro oficial. A iniciativa fracassou, segundo Durov, e não mudou o compromisso da plataforma com privacidade e liberdade de expressão.

A relação entre o fundador do Telegram e o Kremlin, no entanto, é complexa. Embora tenha deixado a Rússia em 2014 após se recusar a colaborar com autoridades em sua antiga rede social, investigações jornalísticas apontam visitas frequentes ao país nos anos seguintes. Em 2024, Durov foi detido na França em meio a uma apuração sobre atividades criminosas na plataforma, adicionando novas camadas de incerteza sobre sua posição.

O que Moscou realmente quer

No centro do conflito está a soberania dos dados. A Rússia exige que empresas estrangeiras armazenem e processem informações de usuários russos em servidores localizados no país. Essa política começou a tomar forma em 2015, após a primeira invasão da Ucrânia, com a chamada Lei de Localização de Dados.

Desde então, as regras ficaram mais rígidas. A partir de janeiro de 2026, todos os serviços de internet que operam na Rússia serão obrigados a armazenar mensagens de usuários por três anos e fornecê-las às autoridades mediante solicitação. A exigência vale para textos, áudios, vídeos e metadados — mesmo que o conteúdo tenha sido apagado pelo usuário.

Paralelamente, o governo determinou que um aplicativo nacional, chamado Max, seja pré-instalado em todos os novos dispositivos vendidos no país. Funcionários públicos, professores e estudantes já foram obrigados a usar a plataforma, consolidando sua adoção forçada.

Privacidade em xeque

Organizações de direitos humanos veem nessas medidas um ataque direto à comunicação privada. Ao restringir ou bloquear aplicativos criptografados, o Estado amplia sua capacidade de monitorar cidadãos e controlar o fluxo de informações. Em um contexto de guerra e repressão interna, esse controle ganha contornos ainda mais sensíveis.

Para milhões de russos, a questão não é apenas qual aplicativo usar, mas se ainda será possível se comunicar sem supervisão constante. O movimento do Kremlin sugere que a disputa pelo espaço digital entrou em uma nova fase — menos aberta, mais fechada e profundamente política.

[Fonte: Euronews]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados