O WhatsApp e o Telegram, os dois mensageiros mais populares da Rússia, entraram novamente na mira do Kremlin. Autoridades anunciaram restrições às chamadas de áudio, justificando a decisão como parte da luta contra o crime e o terrorismo. Mas especialistas alertam: por trás da retórica de segurança, o movimento parece ampliar o controle digital e preparar terreno para um substituto doméstico.
Restrição sob o pretexto de segurança

O regulador de comunicações Roskomnadzor afirmou que as restrições foram motivadas por pedidos de autoridades e denúncias de cidadãos. Segundo o órgão, criminosos e grupos extremistas estariam usando chamadas de voz nos aplicativos para aplicar golpes, extorquir dinheiro e recrutar russos em atividades de sabotagem e terrorismo.
Ainda de acordo com o comunicado, os responsáveis pelos mensageiros teriam ignorado solicitações oficiais para adotar contramedidas. A medida se restringe, por ora, às chamadas de áudio, mas deixou milhões de usuários sem saber se o bloqueio pode se estender a outras funções.
Reação das plataformas
O WhatsApp, em nota, disse que resiste a tentativas de governos de violar o direito à comunicação segura. Para a empresa, as restrições são um esforço deliberado de Moscou para minar a privacidade de mais de 100 milhões de russos que dependem do aplicativo.
Já o Telegram, que já havia enfrentado tentativas de bloqueio entre 2018 e 2020, não comentou oficialmente, mas usuários relatam dificuldades crescentes para realizar chamadas.
O cerco digital do Kremlin
O endurecimento não é um episódio isolado. Desde 2022, após a invasão da Ucrânia, o governo bloqueou redes sociais como Facebook e Instagram, proibindo inclusive a empresa Meta, classificada como “extremista”. Mais recentemente, ampliou cortes de internet móvel sob a justificativa de frustrar ataques de drones ucranianos.
Paralelamente, aprovou leis que criminalizam a busca por conteúdos considerados ilícitos e deu mais poder às autoridades para monitorar o tráfego digital. Especialistas veem uma estratégia clara: consolidar um ecossistema online sob vigilância estatal.
Popularidade sob ameaça
Segundo a consultoria Mediascope, o WhatsApp tinha em julho mais de 96 milhões de usuários mensais na Rússia, seguido de perto pelo Telegram, com 89 milhões. Esses números explicam a resistência do governo em conviver com plataformas estrangeiras fora de seu controle direto.
Nos últimos meses, relatos de falhas em chamadas circularam na mídia russa, alimentando especulações de que o bloqueio já vinha sendo testado. Legisladores ligados ao Kremlin chegaram a declarar que o WhatsApp deveria “se preparar para sair do mercado russo”.
A aposta em um mensageiro nacional
O governo não esconde seu plano de substituição. A aposta atende pelo nome de MAX, desenvolvido pela empresa de mídia social russa VK. A plataforma, lançada em versão beta em julho, promete reunir mensagens, serviços públicos, pagamentos e redes sociais em um só ambiente.
Mais de 2 milhões de pessoas se inscreveram nos testes, mas a adesão ainda é tímida diante da base massiva de WhatsApp e Telegram. Um detalhe crucial: os termos de uso deixam claro que dados dos usuários podem ser compartilhados com autoridades mediante solicitação. Além disso, uma lei recém-aprovada exige que o aplicativo venha pré-instalado em todos os smartphones vendidos no país.
O futuro das comunicações digitais na Rússia
A medida reflete uma tendência: a construção de uma internet sob forte vigilância estatal. Enquanto WhatsApp e Telegram resistem, a pressão cresce para que usuários, empresas e órgãos públicos migrem para o MAX.
Autoridades afirmam que o acesso às chamadas poderá ser restabelecido se as plataformas “cumprirem a legislação russa”. Mas, na prática, a mensagem é clara: o espaço para aplicativos estrangeiros está cada vez mais limitado.
[ Fonte: Euronews ]