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Ciência

Asteroides podem arremessar “bolas de neve cósmicas”: imagens da missão DART revelam uma troca lenta de rochas e poeira entre corpos espaciais

Asteroides sempre foram vistos como fósseis imóveis do Sistema Solar. Mas novas análises de imagens da missão DART mostram algo inesperado: alguns deles trocam fragmentos de rocha e poeira como se estivessem lançando pequenas “bolas de neve cósmicas”. A descoberta pode mudar a forma como entendemos esses corpos e até a defesa planetária.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, os asteroides foram descritos como restos primitivos da formação do Sistema Solar, blocos rochosos que orbitam o Sol praticamente inalterados desde os primórdios planetários. No entanto, novas observações sugerem que essa visão estática está incompleta. Em muitos casos, esses objetos formam sistemas binários — dois corpos que orbitam um ao outro — e podem manter interações muito mais dinâmicas do que se imaginava.

Um estudo recente baseado em imagens da missão DART revelou que alguns asteroides próximos da Terra trocam material constantemente. Fragmentos de rocha e poeira podem viajar lentamente de um corpo para outro, remodelando suas superfícies ao longo de milhões de anos.

Asteroides que vivem em pares

Asteroide Rapido
© NOIRLab

Estima-se que cerca de 15% dos asteroides próximos da Terra possuam pequenas luas orbitando ao seu redor. Esses sistemas binários são mais comuns do que os cientistas imaginavam algumas décadas atrás.

Um dos exemplos mais conhecidos é o sistema formado pelo asteroide Didymos e sua pequena lua Dimorphos.

Em 2022, a missão DART colidiu deliberadamente com Dimorphos para testar uma técnica de defesa planetária capaz de alterar a trajetória de um asteroide potencialmente perigoso. Antes do impacto, a nave capturou imagens detalhadas do pequeno satélite rochoso.

Foi justamente nessas fotografias que os cientistas encontraram algo inesperado.

Marcas misteriosas na superfície

Ao analisar as imagens captadas pouco antes da colisão, os pesquisadores observaram padrões brilhantes em forma de leque na superfície de Dimorphos.

Inicialmente, a equipe suspeitou de problemas técnicos nas câmeras ou no processamento das imagens. Segundo a pesquisadora Jessica Sunshine, os cientistas chegaram a considerar a possibilidade de artefatos visuais causados pela iluminação.

No entanto, mesmo após diversas correções digitais para remover sombras e reflexos, os padrões continuaram presentes.

A explicação mais plausível acabou sendo também a mais surpreendente: impactos extremamente suaves de fragmentos provenientes do asteroide Didymos.

Esses fragmentos viajavam a velocidades incrivelmente baixas. Alguns se deslocavam a apenas 30 centímetros por segundo — menos do que a velocidade de uma pessoa caminhando.

Em vez de formar crateras, essas partículas simplesmente pousavam sobre a superfície, espalhando material em padrões que lembram pequenas avalanches de poeira.

Quando a luz do Sol faz os asteroides girarem

Asteroide2
© TBIT – Pixabay

O fenômeno está relacionado a um mecanismo conhecido como efeito YORP.

Esse processo ocorre quando a radiação solar aquece a superfície de um asteroide. A energia absorvida é reemitida na forma de calor, gerando um empurrão minúsculo, mas contínuo.

Ao longo de milhões de anos, esse efeito pode alterar a rotação de pequenos corpos celestes. Se o asteroide começar a girar cada vez mais rápido, sua gravidade superficial pode deixar de ser suficiente para manter fragmentos presos à superfície.

Esses pedaços de rocha acabam sendo lançados lentamente para o espaço. Em sistemas binários como o de Didymos e Dimorphos, parte desse material pode cair sobre a lua menor.

O resultado é uma espécie de troca contínua de poeira e pequenas pedras entre os dois corpos — um processo que os cientistas compararam metaforicamente a “bolas de neve cósmicas”.

Investigando o fenômeno no laboratório

Detectar essas marcas não foi simples. Elas não eram visíveis nas imagens originais da missão.

Somente após meses de análise e processamento avançado de imagens os cientistas conseguiram revelar os padrões ocultos.

Para testar a hipótese, os pesquisadores realizaram experimentos em laboratório. Eles deixaram cair pequenas esferas sobre superfícies de areia misturada com cascalho, simulando a topografia irregular de um asteroide.

Câmeras de alta velocidade mostraram que pedras maiores bloqueavam parte do material, enquanto outras partículas passavam entre elas e formavam padrões radiais muito semelhantes aos observados em Dimorphos.

Simulações computacionais realizadas no Lawrence Livermore National Laboratory confirmaram que tanto fragmentos sólidos quanto nuvens de poeira poderiam produzir essas marcas características.

Um laboratório natural para proteger a Terra

A descoberta tem implicações que vão além da curiosidade científica.

Compreender como os asteroides evoluem ao longo do tempo é essencial para prever o comportamento desses corpos caso algum deles represente uma ameaça para a Terra.

As observações indicam que esses objetos são muito mais dinâmicos do que se pensava. Eles trocam material, alteram sua forma e modificam suas superfícies continuamente.

A história do sistema Didymos-Dimorphos ainda não terminou. Em 2026, a missão europeia Hera deverá chegar ao local para estudar detalhadamente os efeitos do impacto provocado pela DART.

Os cientistas esperam descobrir se as misteriosas marcas sobreviveram ao choque e se novas trilhas de material apareceram após a colisão.

Se isso acontecer, o sistema poderá se tornar um laboratório natural único para acompanhar, em tempo real, como os asteroides evoluem.

E nesse silencioso intercâmbio de poeira e rocha — tão lento que quase passa despercebido — pode estar escondida uma das chaves para proteger nosso planeta no futuro.

 

[ Fonte: Muy Interesante ]

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