No estado do Tennessee, uma antiga usina a carvão pode se tornar palco de uma das experiências energéticas mais ousadas da década. O projeto, apoiado por Bill Gates e liderado pela empresa americana Type One Energy, quer demonstrar que a fusão nuclear — a mesma reação que alimenta o Sol — pode sair do campo experimental e se tornar uma fonte real de eletricidade limpa.
Um reator para imitar as estrelas

O plano é construir o Infinity One, um reator de fusão do tipo stellarator, no terreno onde funcionava a Bull Run Fossil Plant, em Claxton, no Tennessee. A proposta não é apenas erguer uma nova instalação, mas reaproveitar a infraestrutura de uma antiga planta fóssil para acelerar a transição energética.
A fusão nuclear é frequentemente descrita como o “Santo Graal” da energia. Diferentemente das usinas nucleares convencionais, que operam por fissão (quebra de átomos pesados), a fusão une átomos leves em temperaturas extremamente altas, liberando enormes quantidades de energia. É exatamente esse o processo que ocorre no interior do Sol.
Se bem-sucedida, a fusão não emitirá dióxido de carbono e produzirá menos resíduos radioativos de alto nível do que a fissão. Além disso, pode usar como combustível isótopos derivados do hidrogênio — elemento abundante na água do mar.
O que é um stellarator — e por que ele é diferente
O Infinity One não será um tokamak, o modelo de reator mais conhecido e utilizado em grandes projetos internacionais como o ITER, na França. Em vez disso, será um stellarator, uma configuração menos comum e tecnicamente mais complexa.
Ambos os modelos tentam resolver o mesmo problema: como confinar o plasma — um gás superaquecido onde ocorre a fusão — por tempo suficiente para que a reação produza mais energia do que consome. No tokamak, o plasma circula em formato de rosquinha. No stellarator, o confinamento é feito por meio de bobinas magnéticas torcidas e intrincadas, projetadas para manter o plasma mais estável.
A vantagem teórica do stellarator é justamente essa estabilidade. Já o desafio está na engenharia: as bobinas são extremamente complexas de fabricar e montar. Projetos como o Wendelstein 7-X, na Alemanha, o maior stellarator do mundo, ajudaram a validar essa abordagem. Parte da equipe da Type One Energy tem experiência direta nesse tipo de reator.
O papel de Bill Gates e a estratégia de transição

Bill Gates tem ampliado seus investimentos em tecnologias de energia limpa por meio de iniciativas voltadas à inovação climática. Seu apoio à Type One Energy vai além do financiamento: ajuda a atrair visibilidade internacional e parceiros estratégicos.
O projeto também conta com a participação da Tennessee Valley Authority (TVA), empresa pública responsável por geração e distribuição de eletricidade na região. A TVA colaborou com a empresa e com o Departamento de Meio Ambiente e Conservação do Tennessee para dar entrada nos primeiros pedidos de licença — etapa fundamental para viabilizar a construção.
A estratégia adotada é conhecida como “repurposed energy”: reutilizar locais e estruturas de antigas usinas fósseis para abrigar novas tecnologias limpas. Essa abordagem reduz custos, preserva empregos locais e acelera a substituição de fontes poluentes.
Cronograma e ambições futuras
De acordo com o planejamento divulgado, o Infinity One deve estar operacional até 2029. Além do reator em si, o complexo incluirá um centro de treinamento para formar técnicos e engenheiros especializados em fusão nuclear — um sinal de que a empresa aposta em escala futura.
O projeto prevê ainda um segundo reator, o Infinity Two, com capacidade estimada de até 350 megawatts elétricos (MWe). A meta não é apenas gerar energia experimental, mas provar que a fusão pode ser prática, confiável e economicamente viável.
A corrida global pela fusão

Embora a fusão ainda enfrente desafios técnicos significativos — especialmente na manutenção de reações estáveis e energeticamente positivas — o avanço de empresas privadas tem acelerado o setor. Estados Unidos, Europa e China investem bilhões na tentativa de dominar essa tecnologia.
Se o Infinity One atingir seus objetivos, poderá marcar um ponto de virada. Não apenas por produzir eletricidade sem emissões diretas, mas por demonstrar que antigas infraestruturas fósseis podem se transformar em laboratórios do futuro.
O “sol artificial” apoiado por Bill Gates ainda é um experimento. Mas, se funcionar, pode redefinir o mapa energético das próximas décadas.
[ Fonte: Infobae ]