Como as plataformas lucram com golpes — e por que isso importa
O dossiê não foca em “quanto” as Big Techs ganham com golpes, mas como ganham. A lógica é simples e preocupante: primeiro, as plataformas exibem anúncios fraudulentos, geram lucro com impressões e cliques; só depois, quando o estrago já está feito, derrubam parte do conteúdo e apresentam esses bloqueios como eficiência.
Segundo o levantamento, essa dinâmica é perversa. Quando uma campanha enganosa encontra seu público, o sistema publicitário “fatura” antes de qualquer moderação real. O prejuízo, no fim, cai no colo das vítimas — e do Estado.
Outro ponto central é a falta de regulamentação. Enquanto bancos brasileiros operam sob regras rígidas, redes sociais seguem modelos de autorregulação opaca, priorizando receita publicitária. Se o anúncio passa pela moderação automática, começa a rodar — e só depois, em caso de denúncia, a plataforma discute se era golpe.
Meta e Google: dados, denúncias e bilhões em risco
O dossiê expõe números internos da Meta mostrando que até 70% dos novos anunciantes promoviam golpes, produtos ilegais ou baixa qualidade. Um dado que, segundo os autores, aponta que anúncios duvidosos compõem parte relevante da receita.
No Google, o documento destaca casos ligados ao Concurso Público Nacional Unificado (CPNU). Anúncios pagos apareciam no topo das buscas, levando usuários a sites falsos que capturavam senhas e dados sensíveis. A empresa lucrava com cliques até que a AGU notificasse sua remoção — em um episódio de 2025, o Google teve 24 horas para tirar anúncios que imitavam o site do CNU e cobravam taxas inexistentes.
Crime organizado transforma golpes digitais em negócio
O dossiê também detalha como o crime organizado usa fraudes digitais como capital de giro. Facções como PCC e CV ampliaram sua atuação no ambiente online, com dados impressionantes:
- estelionatos eletrônicos cresceram 17% em 2024
- entre 2019 e 2022, crimes digitais em SP subiram 661%
- estelionatos eletrônicos no período aumentaram 1.162%
- um salto de 377 casos para 11.311 por mês
- operações conjuntas de PCC e CV chegaram a movimentar R$ 6 bilhões em fraudes em um único ano
O estudo aponta que o estelionato eletrônico virou peça central da estratégia financeira das facções — e que a colaboração entre grupos rivais no ambiente digital se tornou realidade.
“É um problema estrutural”, diz ex-funcionária da Meta
Daniela da Silva Scapin, uma das autoras do dossiê e ex-funcionária da Meta, destaca a urgência do tema. Segundo ela, o documento reúne pesquisas, dados públicos e informações confiáveis para mostrar como anúncios, conteúdos patrocinados e mecanismos de busca viabilizam crimes digitais em larga escala.
Para Scapin, o objetivo é claro: alertar gestores públicos e fortalecer políticas de responsabilização e transparência no ecossistema digital.
Ela defende que a sociedade também precisa entender que golpes digitais não são exceções, mas sintomas de um modelo de negócios que favorece a disseminação de fraudes — com impacto direto na vida de milhões de brasileiros.
O que vem agora?
O dossiê reacende debates sobre regulamentação, responsabilidade e segurança digital. Em um país onde golpes online explodem e o crime organizado se moderniza, a pressão sobre Big Techs tende a aumentar.
Resta saber se as próximas ações virão na velocidade necessária — ou se o sistema seguirá premiando quem mais lucra com o caos digital.
[Fonte: Correio Braziliense]