Pular para o conteúdo
Ciência

Brasil estreia terapia CAR-T totalmente nacional — e resultados surpreendem pesquisadores

A ciência brasileira acaba de dar um passo gigante. Pela primeira vez, uma terapia celular CAR-T — considerada o topo da tecnologia contra cânceres do sangue — foi desenvolvida, produzida e aplicada sem depender de nenhum laboratório estrangeiro. E o mais impressionante: com taxas de remissão que rivalizam com centros de ponta nos EUA e Europa. Entenda como esse marco pode mudar o futuro da oncologia no país.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Uma terapia inédita feita do início ao fim no Brasil

O estudo CARTHIAE, conduzido pelo Hospital Israelita Albert Einstein e financiado pelo Ministério da Saúde via PROADI-SUS, alcançou resultados que chamaram atenção da comunidade médica. Entre os pacientes tratados com a terapia CAR-T nacional, 81% apresentaram resposta ao tratamento — e 72% alcançaram remissão completa, mesmo após fracasso de todas as terapias anteriores.

A Anvisa autorizou o ensaio como o primeiro estudo clínico fase I de CAR-T totalmente brasileiro. Ele também inaugura na América Latina o modelo de manufatura point-of-care — quando a terapia é produzida no mesmo local onde será aplicada, reduzindo tempo, risco e custos.

Segundo o hematologista Nelson Hamerschlak, coordenador do projeto, o feito prova que “um país de renda média pode produzir CAR-T com segurança, eficácia e custo potencialmente reduzido”.

Entenda a CAR-T e por que ela é tão revolucionária

Brasil estreia terapia CAR-T totalmente nacional — e resultados surpreendem pesquisadores
© https://x.com/FPFabrizioPhD/

A terapia CAR-T funciona como uma reprogramação do sistema imunológico. As células T do paciente são coletadas, modificadas geneticamente para atacar o tumor e reinfundidas no organismo. Essa abordagem tem sido um divisor de águas em cânceres hematológicos avançados, gerando remissões profundas em casos que já eram considerados sem saída.

O grande obstáculo sempre foi o preço. A CAR-T comercial importada pode chegar a R$ 2 milhões ou até R$ 3 milhões por tratamento, principalmente porque as células precisam ser enviadas ao exterior, processadas e devolvidas ao Brasil — um processo demorado, caro e arriscado.

Produzir a CAR-T aqui elimina praticamente toda essa parte da equação, reduzindo tempo e tornando o acesso mais viável.

Como o estudo brasileiro foi conduzido

Onze pacientes — entre 9 e 69 anos — receberam a CAR-T produzida dentro do próprio Einstein. Todos estavam em condição crítica, com linfomas ou leucemias de células B que já não respondiam a mais nada. Cada um havia passado por uma mediana de quatro terapias anteriores.

A produção foi feita com a plataforma CliniMACS Prodigy, que realiza o ciclo completo da terapia sem depender de laboratórios externos. O tempo médio entre coleta e entrega da solução final (o chamado “vein-to-vein”) foi de 22 dias. A taxa de sucesso de manufatura foi de 100% — algo raro até em centros internacionais.

Resultados animadores e efeitos colaterais controláveis

O estudo registrou remissão completa em 72% dos pacientes e resposta global em 81%. As células modificadas permaneceram ativas no corpo por até um ano, o que indica persistência do efeito da terapia.

Os efeitos adversos foram os esperados para CAR-T: febre, inflamação e alterações neurológicas temporárias, como confusão ou sonolência. Todos foram controlados com manejo clínico adequado e desapareceram ao longo das semanas seguintes.

Produzir CAR-T no Brasil muda tudo

A fabricação nacional reduz custo, elimina a dependência internacional e encurta o tempo até o tratamento — três gargalos que impediam o acesso.

Segundo Hamerschlak, essa experiência abre espaço para um modelo descentralizado, com múltiplos centros capazes de produzir ou aplicar CAR-T. Instituições como USP Ribeirão Preto, Butantan, INCA/Fiocruz e Mandacaru já são citadas como possíveis polos de uma futura rede nacional.

O papel do Ministério da Saúde e o debate sobre acesso

O estudo recebeu R$ 31,9 milhões do Ministério da Saúde. O financiamento inicial permitiu viabilizar a estrutura, mas ainda não resolve o debate mais complexo: como — e se — a CAR-T poderá entrar no SUS.

O Ministério reforça que qualquer incorporação exige registro da Anvisa e análise da Conitec, que avalia eficácia, segurança e custo-efetividade antes de liberar novas tecnologias para o sistema público.

O que vem agora para a CAR-T brasileira

A fase II do programa deve começar entre 2026 e 2027, mantendo a produção nacional ativa e ampliando o número de pacientes.

Paralelamente, um novo projeto aprovado pelo Pronon desenvolve um vetor viral totalmente brasileiro, produzido em padrão GMP, para futuras CAR-T contra mieloma múltiplo — um passo crucial para que o país tenha autonomia completa.

A terapia CAR-T nacional ainda está no começo, mas já mostra potencial para transformar o tratamento de câncer no Brasil. Agora, resta acompanhar se essa revolução científica conseguirá chegar ao SUS e, finalmente, alcançar quem mais precisa.

[Fonte: G1 – Globo]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados