Com avanços na medicina veterinária e nos cuidados domésticos, os cães vivem mais. Mas a longevidade vem acompanhada de doenças associadas à idade, incluindo alterações cognitivas. Um novo conjunto de diretrizes internacionais propõe um método padronizado para identificar e acompanhar a demência canina, ajudando a separar mudanças normais do envelhecimento de um quadro neurodegenerativo que exige intervenção.
O que é o declínio cognitivo canino
O chamado síndrome de disfunção cognitiva canina (SDCC) é uma condição neurodegenerativa crônica e progressiva, semelhante ao Alzheimer em humanos. Ele se manifesta por mudanças graduais no comportamento, na memória e na capacidade de aprendizado. O problema é que esses sinais costumam ser sutis no início e facilmente atribuídos “à idade”, o que dificulta o diagnóstico precoce.
Por que faltavam critérios claros

Até agora, não existiam parâmetros amplamente aceitos para diagnosticar o SDCC de forma consistente. Os sinais são inespecíficos, exames de imagem como a ressonância magnética mostram alterações tardias e outras doenças podem imitar os mesmos sintomas. Além disso, comorbidades comuns em cães idosos confundem a avaliação clínica.
Foi para enfrentar essa lacuna que um grupo internacional de especialistas em cognição canina publicou diretrizes no Journal of the American Veterinary Medical Association.
Um consenso internacional para padronizar o diagnóstico
O trabalho foi liderado por Natasha Olby, da North Carolina State University, e reuniu pesquisadores do Canadá, Hungria, Alemanha e Estados Unidos. O objetivo foi criar um ponto de partida prático, capaz de evoluir com novas evidências científicas.
Segundo os autores, reconhecer o SDCC mais cedo é essencial, porque as intervenções tendem a ser mais eficazes nos estágios iniciais da doença.
A escala DISHAA: seis domínios-chave
As diretrizes propõem definições claras e três níveis de gravidade — leve, moderado e grave — baseados em mudanças comportamentais agrupadas no acrônimo DISHAA:
- Desorientação: confusão espacial, encarar o vazio, dificuldade para reconhecer pessoas ou caminhos.
- Interações sociais alteradas: menos interesse social ou, ao contrário, busca excessiva por atenção.
- Alterações do sono: distúrbios no ciclo sono-vigília, como inquietação noturna.
- Ensujar a casa e problemas de aprendizado/memória: especialmente relevantes se o cão era previamente treinado.
- Mudanças na atividade: redução do brincar e do movimento ou aumento de comportamentos repetitivos.
- Ansiedade: aumento de medo, inquietação e respostas ansiosas.
A escala avalia esses seis domínios de forma integrada — algo que ferramentas anteriores não cobriam completamente.
Como a doença costuma evoluir
Estudos recentes indicam que sinais como inquietação noturna, queda da atividade diurna e mudanças na interação social tendem a aparecer primeiro. Com a progressão, tornam-se mais comuns a desorientação espacial e o hábito de sujar a casa. Cuidadores também relatam perdas sensoriais (visão, audição, olfato) e instabilidade postural.
Classificação da gravidade
- Leve: mudanças sutis e pouco frequentes; o cão mantém funções normais e os sinais podem passar despercebidos.
- Moderado: alterações mais frequentes e intensas, interferindo na rotina e exigindo ajustes no manejo.
- Grave: comprometimento evidente; o cão precisa de ajuda até para funções básicas, demandando cuidado integral.
Esses estágios refletem o impacto funcional percebido pelos tutores, o que torna a classificação prática para o dia a dia clínico.
Monitoramento e diagnóstico por exclusão
Os autores destacam que o SDCC é um diagnóstico de exclusão: antes de confirmá-lo, é preciso descartar outras condições médicas por meio de exames físicos, neurológicos e laboratoriais. A recomendação é iniciar o monitoramento cognitivo em consultas de rotina a partir dos 7 anos. Se houver sinais suspeitos, a escala deve ser aplicada e repetida a cada seis meses; após os 10 anos, o acompanhamento semestral é indicado para todos os cães.
Por que isso muda a prática veterinária
Ao oferecer definições e critérios padronizados, as diretrizes criam uma base comum para pesquisa, diagnóstico e desenvolvimento de terapias. “Há um interesse crescente em tratamentos para a demência canina, mas precisamos de uma definição consensual para avançar”, afirmou Olby.
O documento é apenas o começo, segundo os autores — mas já representa um passo decisivo para reconhecer o declínio cognitivo canino como um problema clínico relevante, tratável e que merece atenção tão cuidadosa quanto a dedicada aos humanos.
[ Fonte: Clarin ]