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Ciência

Cérebro dos cães separa a fala em palavras de forma surpreendentemente parecida com o nosso

Estudo publicado na Science mostra que a exposição frequente à fala humana pode ter moldado a maneira como o cérebro dos cães processa a linguagem
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Tempo de leitura: 3 minutos

Os cães podem entender muito mais sobre nossa fala do que imaginávamos. Um novo estudo descobriu que o cérebro desses animais consegue identificar padrões de consoantes e usá-los para separar um fluxo contínuo de fala em palavras, de maneira semelhante ao cérebro humano.

A descoberta, publicada na revista Science por pesquisadores da Universidade ELTE, em Budapeste, desafia a ideia de que esse tipo de processamento depende exclusivamente de mecanismos linguísticos próprios da nossa espécie. Os resultados sugerem que a exposição frequente à fala pode ser suficiente para modificar a forma como o cérebro processa os sons.

Por que as consoantes são tão importantes

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© Getty Images – Unsplash

Quando ouvimos alguém falando, nosso cérebro precisa descobrir onde uma palavra termina e a seguinte começa. Não existem necessariamente pausas claras entre todas elas.

Para resolver esse problema, o cérebro humano presta atenção a diferentes pistas sonoras. Uma das mais importantes são as consoantes.

Embora as vogais geralmente sejam mais fortes e perceptíveis, as consoantes carregam informações fundamentais sobre a estrutura das palavras. Desde a infância, nosso cérebro tende a dar mais atenção a elas.

Esse comportamento é conhecido como viés consonantal.

A grande dúvida dos pesquisadores era descobrir de onde ele vem. Seria uma característica específica do cérebro humano ou poderia surgir simplesmente como resultado da exposição constante à fala?

Os cães domésticos ofereceram uma oportunidade interessante para responder à pergunta.

Cientistas compararam humanos e cães

O experimento reuniu 20 pessoas e 20 cães domésticos.

Durante os testes, os participantes ouviram sequências contínuas de fala, sem pausas claras entre as palavras. Os pesquisadores criaram três tipos diferentes de estímulos.

Em um deles, padrões recorrentes de consoantes permitiam identificar as palavras. Em outro, essa estrutura dependia das vogais. O terceiro apresentava os sons em uma ordem aleatória, sem padrões previsíveis.

Enquanto humanos e cães ouviam as sequências, os cientistas monitoraram a atividade cerebral usando eletroencefalografia, ou EEG, uma técnica não invasiva.

O objetivo era observar a chamada sincronização neural: quando a atividade do cérebro começa a acompanhar o ritmo dos padrões presentes nos sons.

O cérebro dos cães encontrou as palavras

Os resultados revelaram uma semelhança surpreendente.

Quando as palavras eram definidas pelos padrões de consoantes, o cérebro dos cães conseguiu acompanhar seu ritmo de maneira semelhante ao cérebro humano.

Cerca de 400 milissegundos após o início de cada palavra, apareceu uma alteração característica na atividade elétrica cerebral das duas espécies. O efeito, porém, surgiu apenas quando as palavras eram estruturadas por consoantes.

Segundo Kinga G. Tóth, psicóloga e coautora principal do estudo, esta é a primeira evidência de que um viés consonantal pode surgir no cérebro de uma espécie diferente da humana.

O resultado sugere que essa capacidade não depende necessariamente de um sistema linguístico exclusivo do cérebro humano desenvolvido durante os primeiros anos de vida.

Humanos ainda processam a fala de forma diferente

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© FreePik

As semelhanças não significam que cães e humanos escutem a linguagem exatamente da mesma maneira.

Os participantes humanos também conseguiram identificar palavras definidas por padrões de vogais, embora com desempenho inferior ao observado com as consoantes. Os cães não apresentaram a mesma capacidade.

Outra diferença apareceu na escala em que os sons eram processados.

O cérebro humano conseguiu sincronizar sua atividade com sons individuais da fala. Nos cães, a menor unidade identificada foi a sílaba.

Isso indica que nosso cérebro analisa a fala com uma resolução mais detalhada, tratando sons individuais como elementos separados. Para os cães, a divisão parece acontecer em blocos maiores.

Conviver conosco pode ter mudado o cérebro dos cães

A descoberta levanta uma possibilidade particularmente interessante: viver cercado por humanos e ouvir nossa fala diariamente pode ter influenciado a maneira como o cérebro dos cães funciona.

Segundo Attila Andics, neurocientista cognitivo e diretor do laboratório responsável pelo estudo, a exposição regular à fala pode ser suficiente para produzir características de processamento que anteriormente haviam sido observadas apenas em humanos.

Isso não significa que os cães compreendam a linguagem da mesma maneira que nós.

Mas mostra que anos ouvindo pessoas conversarem podem ter consequências muito mais profundas do que simplesmente ensinar um animal a reconhecer comandos como “senta”, “fica” ou seu próprio nome.

A convivência conosco pode ter ensinado o cérebro dos cães a encontrar, em meio a um fluxo contínuo de sons, algo que também é essencial para nós: onde estão as palavras.

 

[ Fonte: Clarín ]

 

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