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Ciência

O que acontece quando os ritmos do planeta encontram a atividade do cérebro?

Uma hipótese controversa investiga se sinais eletromagnéticos naturais do planeta podem interagir com o cérebro e influenciar processos ligados à percepção e à consciência.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Existe uma atividade invisível acontecendo ao nosso redor o tempo todo. Raios, tempestades e a própria atmosfera produzem ondas eletromagnéticas que atravessam o planeta sem que nossos sentidos percebam. Agora, pesquisadores estão examinando uma possibilidade intrigante: será que o cérebro, além de processar sinais vindos do corpo e dos sentidos, também pode responder a alguns desses ritmos naturais? A ideia ainda está longe de ser comprovada, mas levanta perguntas interessantes sobre os limites da nossa mente.

O sinal invisível que chamou a atenção dos pesquisadores

O ponto de partida são as chamadas ressonâncias de Schumann, ondas eletromagnéticas que se formam entre a superfície da Terra e a ionosfera. Elas são alimentadas principalmente pelas enormes quantidades de descargas elétricas que acontecem diariamente em diferentes partes do planeta.

A frequência fundamental dessas ressonâncias fica próxima de 7,83 hertz, acompanhada por outros harmônicos. O número chamou a atenção porque está relativamente próximo de determinadas faixas de atividade elétrica observadas no cérebro, especialmente aquelas associadas a estados de relaxamento e transição.

Mas existe uma diferença importante entre encontrar uma coincidência e demonstrar uma conexão.

Dois fenômenos podem apresentar frequências semelhantes sem que exista qualquer interação entre eles. Por isso, a proposta não afirma que o cérebro esteja literalmente “sintonizado” com a Terra. A questão é saber se organismos vivos poderiam responder, de alguma maneira mensurável, a sinais ambientais extremamente fracos.

Um grupo europeu liderado pelo anestesiologista Marco Cavaglià, da Universidade Politécnica de Turim, desenvolveu um modelo teórico para investigar justamente essa possibilidade. Nele, o cérebro deixa de ser considerado um sistema completamente isolado e passa a ser analisado como parte de uma rede dinâmica que troca energia e informação com o organismo e com o ambiente.

A pista pode estar muito mais perto das células

Uma das partes mais curiosas da hipótese não está diretamente nos neurônios, mas no ambiente microscópico que existe ao redor deles.

Os pesquisadores consideram o chamado “água vicinal”, formado por camadas de moléculas de água organizadas próximas às membranas celulares. Como a água possui propriedades elétricas particulares, essas moléculas podem apresentar diferentes níveis de organização quando submetidas a determinadas condições.

A proposta sugere que essas estruturas poderiam participar do armazenamento ou da transferência de energia e, potencialmente, responder a campos eletromagnéticos de baixa intensidade.

As próprias membranas celulares também entram nessa equação. Em vez de funcionarem apenas como barreiras que delimitam cada célula, suas propriedades físicas poderiam influenciar a maneira como os neurônios respondem aos estímulos.

Cavaglià compara a ideia ao funcionamento de instrumentos musicais: duas estruturas podem receber a mesma nota, mas produzir respostas diferentes dependendo de sua composição e formato.

Isso ajudaria a explicar por que uma eventual interação entre campos externos e sistemas biológicos não precisaria ser simples ou uniforme. Ainda assim, nada disso demonstra que as ressonâncias de Schumann tenham um efeito relevante sobre o cérebro humano.

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© FreePik

Uma nova maneira de pensar sobre consciência

Para conectar essas diferentes peças, os pesquisadores recorrem ao chamado modelo EMI, baseado em energia, massa e informação. A ideia descreve o cérebro como um sistema complexo que muda continuamente, mas que também tende a retornar a determinados estados relativamente estáveis.

Esses estados, conhecidos como atratores, poderiam estar relacionados a processos como memória, percepção e a própria sensação de identidade.

Nesse cenário, estímulos externos não precisariam “controlar” pensamentos. Eles poderiam, em tese, alterar ligeiramente as condições que ajudam o cérebro a permanecer ou transitar entre determinados padrões de atividade.

A hipótese também dialoga com estudos de hiperescanamento, nos quais pesquisadores analisam simultaneamente a atividade cerebral de várias pessoas. Algumas experiências mostram que indivíduos envolvidos em uma mesma música, atividade ou interação social podem apresentar determinados padrões de sincronização neural, além de mudanças coordenadas na respiração, frequência cardíaca e respostas emocionais.

Isso não significa que todos esses fenômenos tenham a mesma origem. Mas reforça uma pergunta mais ampla: até que ponto a atividade cerebral depende apenas do que acontece dentro do organismo?

Antes de falar em “antena”, ainda falta muita coisa

A comparação do cérebro com uma antena é sedutora. Se um receptor consegue responder a determinadas frequências, poderia um sistema biológico apresentar algum tipo de sensibilidade semelhante?

Por enquanto, não há evidências suficientes para afirmar isso.

Os campos eletromagnéticos naturais envolvidos são extremamente fracos, e ainda não está estabelecido que possam provocar alterações cerebrais consistentes, mensuráveis e reproduzíveis em seres humanos.

Para transformar a hipótese em uma conclusão científica, seriam necessários experimentos controlados capazes de separar qualquer possível efeito eletromagnético de fatores como luz, sons, expectativas, interação social e ritmos circadianos. Também seria necessário identificar um mecanismo físico específico e reproduzir os resultados em diferentes laboratórios.

Por isso, a ideia permanece especulativa. Seu interesse está justamente na pergunta que ela coloca sobre a mesa: se o cérebro é influenciado continuamente pelo corpo e pelo ambiente, talvez compreender a consciência exija olhar um pouco além dos limites físicos do crânio.

A Terra pode não estar “conversando” com nossa mente — pelo menos nada disso foi demonstrado. Mas descobrir se existe algum diálogo físico, por menor que seja, seria uma questão científica bastante diferente e muito mais interessante.

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