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Ciência

Chimpanzés envelhecem, se movimentam e sofrem lesões — então por que têm muito menos artrose que nós?

Humanos e grandes primatas compartilham muito de sua biologia, mas nossas articulações envelhecem de forma diferente. Um estudo encontrou uma pista surpreendente escondida na própria cartilagem.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Chimpanzés e gorilas também envelhecem, sofrem lesões e passam décadas movimentando suas articulações. Ainda assim, existe uma diferença intrigante: a artrose é extremamente comum entre humanos e muito menos frequente nesses outros grandes primatas. Caminhar sobre duas pernas e viver mais tempo pareciam explicações óbvias. Agora, uma pesquisa publicada na Nature encontrou uma diferença molecular muito mais profunda — e ela pode ter surgido durante a própria evolução da nossa espécie.

Nosso cartilagem tem muito menos de uma substância que funciona como amortecedor

Pesquisadores do Instituto Weizmann de Ciências e da Universidade de Kyoto começaram analisando 561.410 alterações genéticas humanas localizadas em regiões regulatórias do DNA.

Essas regiões não necessariamente produzem proteínas. Em vez disso, ajudam a controlar quando e com que intensidade determinados genes funcionam.

Os cientistas compararam versões humanas e ancestrais dessas sequências em células de cartilagem e encontraram 15.077 regiões cuja atividade havia mudado especificamente em nossa linhagem.

Um padrão chamou atenção.

Genes relacionados aos glicosaminoglicanos, ou GAGs, apresentavam atividade sistematicamente menor.

Essas moléculas são longas cadeias de açúcares que atraem água e participam da formação da matriz gelatinosa da cartilagem. Em termos simples, ajudam nossas articulações a resistir à pressão e absorver impactos.

Então os pesquisadores foram diretamente aos tecidos.

Foram analisadas 139 amostras de cartilagem de 42 humanos e sete grandes primatas, provenientes de oito tipos de articulações.

A diferença foi enorme.

Os humanos apresentavam, em média, cerca de três vezes menos GAGs. Dependendo da articulação, a quantidade era entre 2,6 e quatro vezes menor.

Idade, sexo e o fato de uma articulação sustentar ou não o peso corporal não explicaram essa diferença.

Podemos ter começado a vida evolutiva com menos margem para o desgaste

É aqui que os resultados começam a se conectar com a artrose.

Pesquisas anteriores já haviam observado que pessoas com osteoartrite ou degeneração dos discos vertebrais podem apresentar aproximadamente 25% a 38% menos GAGs do que indivíduos saudáveis.

A diferença encontrada entre humanos e outros grandes primatas foi ainda maior: cerca de 62%.

Os autores levantam uma possibilidade intrigante.

Nossa espécie talvez já comece com um nível basal relativamente baixo dessas moléculas. Décadas de envelhecimento, lesões e desgaste poderiam então aproximar mais rapidamente a cartilagem de um ponto em que sua estrutura começa a se deteriorar.

Isso não significa que os pesquisadores tenham encontrado um “gene da artrose”.

A doença é multifatorial e envolve idade, histórico de lesões, metabolismo, genética individual e diversos outros elementos.

O estudo sugere algo diferente: os humanos podem carregar uma vulnerabilidade de base que chimpanzés e gorilas aparentemente não compartilham na mesma intensidade.

E isso leva a uma pergunta inevitável.

Por que a evolução teria favorecido mudanças capazes de reduzir um componente tão útil das articulações?

A possível resposta pode estar nas pernas — ou até no cérebro

Os pesquisadores apresentam algumas hipóteses, mas nenhuma delas está demonstrada.

Uma envolve a transformação do esqueleto humano.

Ao longo da evolução, desenvolvemos pernas longas, ossos relativamente mais leves e uma anatomia especializada no bipedismo. Alterações na produção de GAGs podem ter participado da remodelação dos tecidos necessária para construir um corpo eficiente em deslocamentos terrestres prolongados.

Existe ainda uma hipótese mais ousada.

Os GAGs também participam da estabilização de conexões entre neurônios. Os autores especulam que sua redução poderia ter ajudado o cérebro humano a preservar plasticidade por mais tempo, favorecendo nossa capacidade de aprender.

Por enquanto, essa ligação permanece especulativa.

Então caminhar sobre duas pernas deixou nossas articulações mais vulneráveis?

O estudo não demonstra que o bipedismo tenha causado diretamente a artrose.

Mudanças regulatórias ocorridas durante a evolução humana reduziram significativamente os GAGs da cartilagem, diminuindo potencialmente nossa margem de proteção contra décadas de desgaste.

Essas mesmas mudanças podem ter acompanhado transformações importantes do corpo humano.

A evolução raramente produz soluções perfeitas. Ela trabalha com compromissos.

Nossa anatomia tornou possível caminhar e correr grandes distâncias sobre duas pernas, deixando as mãos livres e transformando profundamente nosso modo de vida.

Milhões de anos depois, porém, talvez exista uma consequência silenciosa desse processo.

Parte do preço de construir o corpo humano moderno pode continuar escondida exatamente nos lugares que sustentam cada um de nossos passos.

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