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Ciência

O Google acaba de criar um mapa gigantesco do nosso DNA que pode revelar onde procurar respostas para doenças

São bilhões de alterações possíveis escondidas no código genético humano. Uma nova ferramenta de IA tenta prever quais realmente importam — e os primeiros testes já encontraram pistas inesperadas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O genoma humano possui cerca de 3 bilhões de pares de bases, mas mudar uma única “letra” desse código pode não fazer absolutamente nada — ou alterar processos relacionados a uma doença. Descobrir quais mudanças importam é um desafio gigantesco porque seria praticamente impossível testar todas em laboratório. O Google DeepMind decidiu atacar o problema de outra maneira: usou inteligência artificial para construir um mapa preditivo em uma escala difícil de imaginar.

Nove bilhões de mudanças possíveis, analisadas antes mesmo de chegar ao laboratório

O Google acaba de criar um mapa gigantesco do nosso DNA que pode revelar onde procurar respostas para doenças
© Pexels

O DNA utiliza um alfabeto surpreendentemente pequeno: A, C, G e T. Mas as combinações dessas quatro letras carregam as instruções necessárias para o funcionamento do organismo.

Quando uma dessas letras muda, surge uma variante genética.

Algumas são praticamente irrelevantes. Outras podem modificar a maneira como genes funcionam e, em determinados casos, contribuir para o desenvolvimento de doenças.

O grande problema sempre foi separar umas das outras.

Existem aproximadamente 9 bilhões de substituições possíveis de uma única letra no genoma humano. Testar experimentalmente cada uma seria uma tarefa praticamente inviável.

É aí que entra o novo AlphaGenome Atlas, apresentado pelo Google DeepMind.

Em vez de catalogar apenas variantes já encontradas em pessoas, a plataforma utiliza o modelo AlphaGenome para prever os possíveis efeitos moleculares de todas essas 9 bilhões de alterações.

O resultado é uma espécie de atlas do genoma: o pesquisador pode chegar com uma determinada variante e consultar o que a inteligência artificial prevê que aconteceria caso aquela letra fosse modificada.

E o tamanho do projeto ajuda a entender sua ambição.

O banco de dados ocupa aproximadamente 1 petabyte e é mais de 30 vezes maior que a base do AlphaFold, uma das ferramentas científicas mais conhecidas do DeepMind.

Mas armazenar bilhões de previsões não seria particularmente útil se os pesquisadores não soubessem onde começar.

A IA tenta encontrar as agulhas escondidas em um palheiro genético gigantesco

Para resolver esse problema, o DeepMind criou outra ferramenta dentro do Atlas: o AlphaGenome Variant Impact, ou AVI.

Na prática, o sistema atribui uma pontuação às variantes para ajudar pesquisadores a identificar quais parecem ter maior potencial de provocar efeitos biológicos importantes.

O AVI combina informações do AlphaGenome com o AlphaMissense, outro modelo do DeepMind desenvolvido para prever os efeitos de alterações que afetam proteínas.

Isso é especialmente relevante porque apenas cerca de 2% do genoma humano codifica diretamente proteínas.

Os outros 98% incluem regiões que ajudam a controlar quando, onde e em que intensidade os genes são ativados. É justamente nessa enorme área não codificante que estão muitas variantes associadas a características humanas e doenças.

O AlphaGenome tenta interpretar também esse território muito menos compreendido.

Suas previsões abrangem processos como expressão genética, splicing de RNA e acessibilidade da cromatina, considerando centenas de tipos celulares e tecidos humanos e de camundongos.

Em vez de dizer apenas “esta variante parece importante”, portanto, a ferramenta tenta oferecer pistas sobre por que ela poderia ser importante.

E alguns pesquisadores já começaram a colocar essa capacidade à prova.

Uma doença rara mostrou o que esse mapa pode fazer

Em colaboração com o consórcio GREGoR, pesquisadores utilizaram o AVI para investigar casos de doenças raras ainda sem explicação genética conclusiva.

Entre milhares de candidatos, o sistema ajudou a destacar uma alteração no gene DNM1 que havia passado despercebida em análises anteriores.

A previsão indicava que a variante criava um local incorreto de splicing, interferindo na maneira como as instruções genéticas eram processadas e levando a uma extensão anormal da proteína resultante. Depois, experimentos confirmaram o mecanismo previsto.

Outro experimento ocorreu com dados de mais de 54 mil participantes do UK Biobank.

Pesquisadores da Universidade de Exeter utilizaram o Atlas para procurar variantes raras em regiões não codificantes associadas a características humanas. Em um dos exemplos divulgados pelo DeepMind, uma região contendo 526 variantes candidatas pôde ser reduzida para apenas quatro consideradas mais relevantes.

Esse é provavelmente o potencial mais imediato da tecnologia.

A IA não precisa solucionar uma doença sozinha. Se conseguir reduzir milhares de possibilidades para algumas dezenas — ou até algumas unidades — pode permitir que cientistas concentrem tempo e dinheiro justamente nos experimentos com maior chance de produzir respostas.

Este não é um mapa capaz de prever seu futuro genético

Apesar da escala impressionante, existe uma distinção fundamental.

O AlphaGenome Atlas apresenta previsões computacionais, não resultados experimentais definitivos.

Encontrar uma variante classificada como potencialmente importante não significa automaticamente descobrir a causa de uma doença. As hipóteses ainda precisam ser verificadas em laboratório e interpretadas dentro do contexto biológico e clínico adequado.

O próprio DeepMind afirma que o AlphaGenome não foi validado para uso clínico.

Isso significa que a plataforma não deve ser entendida como uma ferramenta capaz de analisar o DNA de uma pessoa e entregar diagnósticos.

Sua função, por enquanto, é outra: ajudar cientistas a decidir onde vale a pena investigar primeiro.

O Atlas está disponível gratuitamente para pesquisa acadêmica e não comercial por meio de uma interface que pode ser utilizada sem conhecimento de programação. O DeepMind também pretende disponibilizá-lo comercialmente pelo Google Cloud.

Depois do AlphaFold mostrar como a IA poderia acelerar o estudo das estruturas das proteínas, o novo projeto tenta levar uma lógica semelhante para outro problema monumental da biologia.

Existem bilhões de possíveis mudanças escondidas no nosso código genético.

A grande novidade não é que a inteligência artificial tenha encontrado imediatamente o significado de todas elas. É algo talvez mais útil para a ciência: pela primeira vez, pesquisadores possuem um enorme mapa indicando onde as respostas mais interessantes podem estar escondidas.

[Fonte: Xataka]

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