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Tecnologia

China aprova chip cerebral para uso comercial e dá o primeiro passo de um plano ambicioso para liderar a indústria de interfaces cérebro-computador

Enquanto Estados Unidos e Europa avançam com cautela, a China autorizou o primeiro implante cerebral para uso comercial no tratamento de paralisia. O movimento sinaliza mais do que um avanço médico: faz parte de uma estratégia nacional para dominar uma das tecnologias mais promissoras do futuro.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A China acaba de cruzar uma linha que outras potências ainda observam à distância. O país aprovou o uso comercial de um chip cerebral capaz de traduzir pensamentos em movimentos, marcando um avanço significativo na área de interfaces cérebro-computador (BCI, na sigla em inglês). Mais do que um feito científico, a decisão revela uma estratégia clara: transformar inovação em liderança global.

O chip que transforma pensamento em ação

Enigma Dos Chips Chineses
© Shutterstock / VGV MEDIA

O dispositivo, chamado NEO, foi desenvolvido pela empresa Neuracle Medical Technology e já passou por 18 meses de testes clínicos. A aprovação foi concedida pela Administração Nacional de Produtos Médicos da China para pacientes entre 19 e 60 anos com paralisia causada por lesões na medula espinhal ou no pescoço.

O implante tem aproximadamente o tamanho de uma moeda e é inserido no crânio. Dele partem eletrodos que são posicionados sobre áreas do cérebro responsáveis pelo controle motor.

O funcionamento é direto, mas impressionante: quando o paciente imagina mover a mão, o chip capta esse sinal neural, envia para um computador e o sistema converte o comando em movimento real — executado por uma prótese.

Na prática, isso permite controlar uma luva robótica capaz de realizar tarefas básicas do dia a dia, como segurar objetos, manipular utensílios ou até auxiliar na higiene pessoal.

Testes sem efeitos adversos relevantes

Segundo dados divulgados por pesquisadores e publicados na revista Nature, 32 pessoas já utilizaram o dispositivo durante os testes, sem registro de efeitos colaterais significativos.

Esse ponto é crucial. Embora diversas empresas ao redor do mundo estejam desenvolvendo tecnologias semelhantes, poucas conseguiram avançar até uma etapa de aprovação regulatória.

Projetos como o da Neuralink, por exemplo, ainda enfrentam desafios relacionados à segurança e estabilidade dos implantes, o que tem retardado sua liberação para uso comercial.

Um plano maior por trás da inovação

A aprovação do NEO não é um movimento isolado. Ela se encaixa em uma estratégia mais ampla do governo chinês para liderar o setor de interfaces cérebro-computador.

Um documento político recente, que circulou entre especialistas, descreve um plano com 17 etapas para transformar o país em referência global na área em um prazo de cinco anos.

A estratégia inclui desde o incentivo à pesquisa até a aplicação prática em setores estratégicos da economia.

Segundo Phoenix Peng, cofundador da empresa NeuroXess, a mensagem é clara: a tecnologia deixou de ser apenas experimental e entrou na fase de produto.

Expansão para além dos implantes

Chips Cerebrais
© Getty Images / Frederic J. Brown/AFP

O plano chinês também aposta fortemente em dispositivos não invasivos — aqueles que não precisam ser implantados no cérebro.

Entre as possibilidades estão tecnologias vestíveis, como dispositivos para a testa, headsets, aparelhos semelhantes a aparelhos auditivos, óculos inteligentes e visores.

Esses sistemas poderiam ser aplicados em áreas de alto risco, como mineração, energia nuclear, eletricidade e manipulação de materiais perigosos, permitindo que operadores controlem máquinas ou sistemas apenas com o pensamento.

O início de uma nova era tecnológica

Até agora, o foco principal dessas tecnologias tem sido restaurar funções perdidas, especialmente em pessoas com deficiência. Mas o potencial vai muito além.

Já existem protótipos capazes de permitir comunicação direta por pensamento, controle de computadores sem movimento físico e até tentativas iniciais de restaurar a visão.

Com a aprovação comercial do NEO, a indústria entra em uma nova fase — em que as interfaces cérebro-computador deixam de ser apenas experimentos de laboratório e começam a se tornar produtos reais.

E, ao que tudo indica, a China pretende liderar essa transição.

 

[ Fonte: Wired ]

 

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