A Antártida guarda a maior reserva de água doce do planeta. E justamente por isso, qualquer alteração em suas enormes plataformas de gelo tem potencial para impactar oceanos, cidades costeiras e milhões de pessoas em todo o mundo.
Agora, um grupo internacional de cientistas descobriu um mecanismo oculto que pode acelerar perigosamente esse processo.
Pesquisadores da Noruega, Austrália, Finlândia e Reino Unido identificaram canais escondidos sob o gelo antártico capazes de concentrar água oceânica mais quente em pontos extremamente vulneráveis. Segundo o estudo, publicado na revista Nature Communications, essas estruturas podem multiplicar por dez a velocidade do derretimento em determinadas áreas.
O fenômeno ameaça enfraquecer plataformas inteiras de gelo e acelerar o fluxo de gelo continental em direção ao oceano — um dos principais motores da elevação do nível do mar.
O que são os canais escondidos sob o gelo
As plataformas de gelo da Antártida funcionam como gigantescas barreiras naturais. Elas retardam o avanço das geleiras continentais em direção ao mar.
Quando essas estruturas perdem espessura ou estabilidade, deixam de atuar como “freios”, permitindo que enormes volumes de gelo avancem mais rapidamente para o oceano.
Os cientistas concentraram a pesquisa nos chamados canais basais: enormes sulcos localizados sob as plataformas de gelo, alguns com quilômetros de largura e centenas de metros de profundidade.
Até pouco tempo, muitos pesquisadores acreditavam que esses canais poderiam ajudar a redistribuir tensões e até estabilizar partes do gelo.
Mas o novo estudo aponta exatamente o contrário.
Água quente fica presa dentro dos canais

A equipe utilizou simulações numéricas de alta resolução para estudar a plataforma de gelo Fimbulisen, localizada na Antártida Oriental.
O objetivo era entender como a circulação oceânica interage com o relevo escondido sob o gelo.
Os resultados mostraram que a própria geometria dos canais funciona como uma espécie de armadilha térmica.
Águas oceânicas relativamente mais quentes conseguem entrar nesses sulcos e permanecem circulando ali por mais tempo. Isso intensifica o derretimento justamente nas regiões mais profundas e estruturalmente sensíveis da plataforma.
Segundo os pesquisadores, mesmo pequenas intrusões de água quente já são suficientes para provocar mudanças importantes.
Nos cenários simulados com entrada de água mais quente, o derretimento aumentou até dez vezes dentro dos canais.
O perigo pode ser maior do que se imaginava
O pesquisador Tore Hattermann, do centro de pesquisa polar iC3, em Tromsø, na Noruega, explicou que o formato da base das plataformas de gelo não é apenas um detalhe passivo da paisagem antártica.
Segundo ele, essas estruturas conseguem “capturar” calor oceânico exatamente nos pontos onde o derretimento adicional causa mais danos.
Isso cria um ciclo perigoso.
À medida que o gelo derrete, os canais aumentam de tamanho. E quanto maiores eles ficam, mais água quente conseguem concentrar.
No pior cenário, isso pode enfraquecer a estabilidade de toda a plataforma de gelo e aumentar o risco de fraturas gigantescas.
Nem a Antártida Oriental está totalmente protegida
O estudo também chamou atenção por outro motivo importante.
A plataforma Fimbulisen fica na Antártida Oriental, uma região tradicionalmente considerada mais fria e relativamente menos vulnerável do que outras partes do continente.
Mesmo assim, os pesquisadores observaram que pequenas quantidades de água mais quente já conseguem provocar impactos relevantes na estrutura do gelo.
Isso sugere que áreas antes vistas como relativamente estáveis talvez estejam mais ameaçadas pelas mudanças climáticas do que se imaginava.
O impacto pode chegar muito além da Antártida

Embora o fenômeno aconteça em uma das regiões mais remotas do planeta, as consequências podem ser globais.
O enfraquecimento das plataformas de gelo facilita a descarga de gelo continental no oceano, contribuindo diretamente para a elevação do nível do mar.
Isso pode afetar:
- cidades costeiras;
- infraestrutura portuária;
- ecossistemas marinhos;
- populações vulneráveis em regiões litorâneas.
Por causa disso, os cientistas defendem que os modelos climáticos futuros passem a incluir com muito mais precisão o relevo detalhado sob o gelo antártico.
Ignorar esses canais ocultos pode fazer com que projeções sobre o aumento do nível do mar estejam subestimando riscos reais.
Ainda existem muitos mistérios sob o gelo
Os próprios pesquisadores reconhecem que ainda faltam medições diretas em várias áreas da Antártida.
Grande parte do que se sabe hoje vem de simulações computacionais e observações limitadas feitas sob condições extremamente difíceis.
Por isso, o estudo reforça a necessidade de novas missões científicas, sensores submarinos e tecnologias capazes de mapear o que acontece debaixo das gigantescas plataformas de gelo.
No fim, a descoberta deixa um alerta importante: a Antártida talvez seja muito mais sensível ao aquecimento oceânico do que os cientistas acreditavam.
E parte dessa vulnerabilidade estava escondida justamente em lugares que quase ninguém conseguia enxergar.
[ Fonte: Infobae ]