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Ciência

Ciclone extratropical no Brasil reacende alerta sobre mudanças climáticas

O Sul do Brasil voltou a enfrentar um cenário de destruição que já parece assustadoramente familiar. Um ciclone extratropical de altíssimo risco provocou chuvas intensas, ventos extremos e mortes, levantando uma pergunta inevitável: eventos como esse são apenas azar meteorológico ou um sinal claro das mudanças climáticas em ação?
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Tempo de leitura: 3 minutos

O que está por trás do ciclone extratropical

Ciclones extratropicais não são novidade no hemisfério sul. Eles fazem parte da dinâmica natural da atmosfera. O problema, segundo especialistas, não é a existência do fenômeno, mas a intensidade fora do padrão.

O sistema que avançou sobre o Centro-Sul do país trouxe rajadas de vento estimadas em até 120 km/h e volumes extremos de chuva. Em Palhoça, em Santa Catarina, foram registrados 137 mm em apenas 24 horas, com ao menos três mortes confirmadas. Meteorologistas classificaram o evento como de “altíssimo risco”, com grande potencial de desastres.

Mudanças climáticas entram no radar dos cientistas

Ciclone extratropical no Brasil reacende alerta sobre mudanças climáticas
© https://x.com/choquei/

Climatologistas ouvidos pela BBC News Brasil são diretos: não dá mais para ignorar a relação entre a força desses ciclones extratropicais e o aquecimento global. José Marengo, coordenador do Cemaden, explica que o que chama atenção não é a ocorrência do ciclone, mas sua violência.

Segundo ele, estudos já indicam que eventos extremos estão se tornando mais frequentes e intensos devido às mudanças climáticas. A atmosfera mais quente oferece mais energia para tempestades severas, o que ajuda a explicar por que esses fenômenos estão ficando mais destrutivos.

Antártica, gelo marinho e uma cadeia de efeitos

O climatologista Francisco Aquino, da UFRGS, acrescenta um fator-chave nessa equação: a Antártica. Nos últimos anos, o continente registrou uma redução significativa na extensão do gelo marinho, tanto no verão quanto no inverno.

Essa perda de gelo favorece a chamada fase negativa da Oscilação Antártica, o que empurra o cinturão de ciclones extratropicais para mais perto do sul do Brasil. O resultado é uma sequência incomum de tempestades intensas desde setembro.

Aquino alerta que nem todo evento meteorológico pode ser atribuído diretamente às mudanças climáticas, mas a tendência é clara: ciclones mais frequentes e mais intensos.

O perigo dos chamados “ciclones-bomba”

Outro termo que voltou ao noticiário é “ciclone-bomba”. Esses sistemas se intensificam muito rapidamente, com quedas bruscas na pressão atmosférica. O ciclone atual pode atingir valores abaixo de 1000 hPa — algo considerado raríssimo.

Segundo Enver Gutierrez, pesquisador do Inpe, esse comportamento está ligado a ondulações muito intensas dos jatos de vento em altos níveis da atmosfera, algo típico do inverno, não da primavera. Essas ondulações ajudam a transferir energia para camadas mais baixas, fortalecendo o ciclone.

Estudos sobre aquecimento global já apontam que esse tipo de configuração tende a se tornar mais comum.

Um alerta que vai além da previsão do tempo

Para os especialistas, episódios como esse são um alerta claro. Se as mudanças climáticas continuarem avançando sem controle, eventos extremos devem se intensificar ainda mais.

Além de reduzir emissões de gases de efeito estufa, Aquino destaca a necessidade urgente de fortalecer a Defesa Civil, melhorar sistemas de alerta e comunicação e garantir que a população receba avisos antecipados no celular.

Prestar atenção à previsão do tempo, seguir alertas oficiais e se preparar para cenários extremos pode ser a diferença entre um grande susto e uma tragédia. O clima mudou — e ignorar isso já não é uma opção.

[Fonte: Correio Braziliense]

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