O biólogo e neurocientista Alysson Muotri está entre os principais cientistas do mundo no estudo do cérebro humano. Reconhecido por seu trabalho pioneiro no desenvolvimento de minicérebros em laboratório, ele agora se prepara para levar seus experimentos para um novo nível: o espaço.
Durante o SXSW, o maior festival de inovação e tecnologia do mundo, Muotri apresentou os avanços de suas pesquisas e revelou que participará de uma missão da NASA em 2026, onde levará seus organoides cerebrais à Estação Espacial Internacional (ISS). A missão tem como objetivo aprofundar os estudos sobre doenças neurológicas, como autismo e Alzheimer, e buscar novas possibilidades de tratamento.
O cientista por trás dos minicérebros
Formado em ciências biológicas pela Unicamp e com doutorado em biologia genética pela USP, Alysson Muotri deixou o Brasil em 2008 para aprofundar seus estudos nos Estados Unidos. Desde então, atua como professor e pesquisador na Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), onde lidera o Muotri Lab, laboratório que conduz algumas das pesquisas mais inovadoras da neurociência atual.
Seus estudos envolvem a criação de organoides cerebrais, pequenas estruturas desenvolvidas a partir de células-tronco pluripotentes que simulam as primeiras fases do desenvolvimento do cérebro humano. Com esses modelos, é possível investigar transtornos neurológicos, como autismo e Parkinson, e testar novos tratamentos com uma precisão inédita.
A motivação para seu trabalho tem um componente pessoal. O filho de Muotri, Ivan, é autista nível 3, com diversas comorbidades associadas à condição. Diante desse diagnóstico, o cientista mergulhou na pesquisa neurocientífica em busca de respostas e alternativas terapêuticas.
A conexão entre inteligência artificial e neurociência
Além da pesquisa com organoides cerebrais, Muotri vem explorando a relação entre o cérebro humano e a inteligência artificial (IA). Seu objetivo é entender como o cérebro aprende e, a partir disso, desenvolver algoritmos de IA mais eficientes e menos dependentes de alto consumo de energia.
Recentemente, o cientista lançou a Genioo, uma IA especializada em autismo, criada por meio de sua startup Tismoo.me. Inspirada em assistentes virtuais como o ChatGPT, a ferramenta foi projetada para responder dúvidas e oferecer informações de qualidade sobre neurodivergências.
“Embora a IA já tenha um grande valor por sua capacidade de processamento, o cérebro humano ainda é mais eficiente em muitas tarefas”, explica Muotri. “Nosso trabalho busca integrar o melhor do cérebro e da IA, reduzindo o alto custo energético dos sistemas atuais.”
Minicérebros no espaço: o que esperar da missão?
A missão da NASA prevista para 2026 levará os organoides cerebrais desenvolvidos por Muotri até a Estação Espacial Internacional. O objetivo principal é analisar como as doenças neurológicas progridem em ambiente de microgravidade e acelerar a pesquisa de tratamentos para condições como autismo severo e Alzheimer.
Mas por que estudar essas doenças no espaço? Segundo o cientista, o envelhecimento dos minicérebros ocorre mais rápido em microgravidade, permitindo que os pesquisadores observem processos que levariam anos na Terra em um período muito mais curto. Isso pode revelar novas perspectivas sobre como o cérebro humano evolui e responde a doenças.
Essa não será a primeira vez que os minicérebros de Muotri vão ao espaço. Desde 2019, seu laboratório já participou de missões para estudar os organoides cerebrais, mas essa será a primeira vez em que cientistas estarão presentes para conduzir experimentos diretamente na ISS.
Minicérebros podem ser usados para tratar doenças?
Uma das possibilidades mais inovadoras da pesquisa de Muotri é a aplicação dos organoides cerebrais no tratamento de doenças neurológicas, especialmente no caso do Parkinson.
“O Parkinson ocorre porque os neurônios dopaminérgicos morrem”, explica o cientista. “Se conseguirmos criar neurônios novos e resistentes a partir das células do próprio paciente, será possível implantá-los no cérebro e restaurar parte das funções perdidas.”
A pesquisa ainda está em estágio inicial, mas representa um avanço promissor para o futuro da medicina regenerativa.
O futuro da ciência e a jornada de Muotri
Apesar de sua missão espacial, Muotri garante que nunca sonhou em ser astronauta. “Estou indo onde a ciência me leva”, diz o pesquisador. “Se houvesse um tratamento para o autismo no fundo do mar, eu seria um mergulhador.”
Sua jornada científica continua abrindo caminhos para a neurociência e a inteligência artificial, unindo pesquisa de ponta, inovação e um propósito profundamente humano: entender melhor o cérebro para melhorar vidas.
[Fonte: Época Negócios]