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Ciência

Um medicamento pode prevenir o Alzheimer décadas antes de ele surgir?

Cientistas estão testando um anticorpo experimental anti-amiloide em pessoas com predisposição genética para desenvolver Alzheimer precoce.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Um ensaio clínico acaba de começar e pode levar décadas para ser concluído, mas seus resultados podem transformar vidas. Pesquisadores estão testando um medicamento que limpa placas associadas ao Alzheimer em jovens geneticamente predispostos a desenvolver essa devastadora doença cerebral.

Pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Washington estão liderando o estudo, que testa um anticorpo experimental desenvolvido pela farmacêutica Eli Lilly. O medicamento está sendo administrado a pessoas a partir dos 18 anos que apresentam alto risco de desenvolver Alzheimer precoce. Embora possa levar até 25 anos para saber se esses medicamentos funcionam como esperado, os pesquisadores afirmam que será possível obter insights valiosos sobre a natureza do Alzheimer muito antes disso.

O medicamento usado no ensaio chama-se remternetug. Ele foi desenvolvido como sucessor do donanemab (nome comercial Kisunla), da Eli Lilly, aprovado para tratar o Alzheimer precoce em julho de 2024. Donanemab, remternetug e medicamentos semelhantes tentam tratar o Alzheimer alvejando uma versão mal dobrada da proteína beta-amiloide. Em pessoas com Alzheimer, essa proteína se acumula no cérebro, eventualmente formando aglomerados resistentes conhecidos como placas amiloides (outra proteína mal dobrada, a tau, também desempenha um papel fundamental no desenvolvimento da doença).

Embora os medicamentos anti-amiloides sejam os primeiros tratamentos aprovados para retardar a progressão do Alzheimer, as terapias atuais têm efeito modesto. Sabe-se, no entanto, que as placas amiloides podem começar a se formar no cérebro 20 anos ou mais antes de uma pessoa apresentar sintomas da doença. Isso levou à especulação de que esses medicamentos poderiam ser muito mais eficazes—e até prevenir o Alzheimer completamente—se administrados a pessoas de alto risco nesse estágio inicial. Essa é a hipótese que o novo ensaio pretende testar diretamente.

O estudo de prevenção primária

O estudo, chamado de Primary Prevention Trial (Ensaio de Prevenção Primária), incluirá 240 pessoas de famílias conhecidas por carregar mutações em um dos três genes que quase sempre resultam em Alzheimer precoce. O estudo incluirá tanto pessoas com essas mutações quanto parentes sem as mutações, que atuarão como grupo de controle. Para participar, os candidatos devem ter entre 11 e 25 anos a menos do que a idade em que o Alzheimer seria esperado com base no histórico familiar (geralmente entre os 30 e 50 anos).

A parte principal do ensaio durará dois anos, com os participantes sendo randomizados para receber o medicamento ou um placebo a cada três meses. Após esse período, os voluntários poderão optar por tomar o medicamento de forma aberta por mais quatro anos. Como os participantes são muito jovens, os pesquisadores não esperam observar mudanças cognitivas durante o estudo. No entanto, eles poderão verificar se o remternetug consegue retardar ou até interromper o acúmulo de placas amiloides no cérebro dessas pessoas.

“Meu avô faleceu de Alzheimer, assim como a mãe dele e todos os irmãos, exceto um”, disse Hannah Richardson, de 24 anos, participante do Primary Prevention Trial, em um comunicado da Escola de Medicina da Universidade de Washington. “Estou feliz por estar envolvida nesse estudo e na pesquisa porque sei o quão importante isso é.”

Os pesquisadores afirmam que levará cerca de quatro a cinco anos para divulgar os resultados da primeira fase do ensaio, controlada por placebo, enquanto o estudo completo deve ser concluído até 2034. No entanto, o acompanhamento dos pacientes continuará por muitos anos. As lições aprendidas com essa pesquisa provavelmente ajudarão os cientistas a compreender melhor tanto o Alzheimer precoce quanto o Alzheimer clássico.

“Este estudo inovador com essa população especial de pacientes com Alzheimer tem o potencial de impactar significativamente a forma como prevenimos a doença, poupando indivíduos e famílias do sofrimento causado por essa enfermidade fatal”, disse Maria C. Carrillo, diretora científica da Associação de Alzheimer, em comunicado.

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