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Ciência

Cientistas captam sinal de 13 bilhões de anos e reescrevem a história do universo

Imagine receber hoje uma mensagem enviada quando o universo ainda era um “bebê”. Foi exatamente isso que os astrônomos fizeram ao detectar um sinal de cerca de 13 bilhões de anos vindo do espaço profundo. A descoberta oferece um vislumbre raro de como o cosmos era quando tinha apenas 730 milhões de anos — algo em torno de 5% da idade atual do universo. Entenda por que esse achado está mexendo com a astrofísica.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Um clarão colossal que atravessou o tempo

Tudo começou em 14 de março de 2025, quando o satélite franco-chinês SVOM detectou um intenso surto de raios gama. O fenômeno, conhecido como GRB 250314A, durou cerca de 10 segundos, mas carregava uma quantidade absurda de energia.

Esses surtos costumam ser associados ao colapso de estrelas massivas, eventos extremos que liberam radiação suficiente para ser detectada do outro lado do universo. O desafio é agir rápido: esse tipo de sinal some em minutos, e cada segundo conta.

Uma corrida global contra o relógio

Cientistas captam sinal de 13 bilhões de anos e reescrevem a história do universo
© https://x.com/Ay911Moon

Assim que o alerta foi emitido, uma verdadeira operação internacional entrou em ação. Menos de duas horas depois, o observatório Swift, da NASA, conseguiu localizar a origem do sinal. Em seguida, telescópios nas Ilhas Canárias e no Chile, incluindo o VLT (Very Large Telescope), começaram a medir a distância do objeto.

O resultado deixou os cientistas em alerta máximo: o sinal vinha de tão longe que apenas um instrumento seria capaz de analisá-lo em detalhe — o James Webb Space Telescope (JWST).

O James Webb entra em cena

Segundo Andrew Levan, professor da Universidade Radboud e autor principal do estudo, só o James Webb tinha sensibilidade suficiente para resolver o mistério. E o que ele revelou foi histórico.

“Apenas o Webb podia mostrar diretamente que essa luz vinha de uma supernova, resultado do colapso de uma estrela massiva”, explicou. Mais do que isso, a observação provou que o telescópio consegue identificar estrelas individuais quando o universo tinha apenas 5% da idade atual.

A estranha dilatação do tempo cósmico

Aqui entra um detalhe que parece ficção científica. Embora o surto de raios gama tenha durado apenas segundos, observar a supernova exigiu meses de espera. O motivo? A expansão do universo.

Durante seus 13 bilhões de anos de viagem, a luz foi “esticada”, um efeito conhecido como dilatação temporal. Na prática, processos que durariam semanas em regiões próximas passaram a se desenrolar ao longo de meses quando observados da Terra.

Por isso, os astrônomos só apontaram o James Webb para a região em 1º de julho, quando o brilho da supernova atingiria seu pico para nossos instrumentos.

Uma descoberta que ninguém esperava

Os cientistas tinham uma expectativa clara: estrelas tão antigas, formadas na chamada Era da Reionização, deveriam ser quimicamente diferentes das atuais, com poucos elementos pesados e comportamentos mais simples.

Mas os dados do James Webb contrariaram tudo isso. A supernova observada é praticamente idêntica às que vemos hoje. Para Nial Tanvir, professor da Universidade de Leicester e coautor do estudo, o choque foi inevitável.

“Chegamos com a mente aberta. E então o Webb nos mostra que essa supernova se parece exatamente com as supernovas modernas.”

O que isso muda no que sabemos sobre o universo

Essa descoberta sugere que o universo pode ter se estruturado muito mais rápido do que os modelos atuais previam. As chamadas “fábricas estelares” do cosmos primitivo talvez já fossem capazes de produzir estrelas complexas e explosões poderosas logo após o Big Bang.

Enquanto novas perguntas surgem, uma coisa é certa: o James Webb está nos permitindo olhar diretamente para um passado que antes só existia em teoria. E cada novo sinal de bilhões de anos atrás pode obrigar a ciência a repensar tudo o que achávamos que sabíamos sobre a origem do universo.

[Fonte: Terra]

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