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Ciência

Cientistas despejam uma substância química no oceano para tentar frear o aquecimento global — e um experimento no Golfo do Maine pode mostrar se aumentar a alcalinidade do mar realmente funciona

Pesquisadores realizaram um experimento incomum para combater as mudanças climáticas: adicionar hidróxido de sódio ao oceano para aumentar sua alcalinidade e ampliar a absorção de CO₂. O teste ocorreu no Golfo do Maine e pode ajudar a revelar se essa estratégia de geoengenharia pode contribuir para reduzir o aquecimento global.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Os oceanos são um dos maiores aliados naturais contra o aquecimento global. Eles absorvem enormes quantidades de dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas. Porém, esse processo tem um efeito colateral: a água do mar se torna gradualmente mais ácida, o que diminui sua capacidade de continuar capturando carbono. Diante desse desafio, cientistas estão testando uma abordagem ousada: alterar deliberadamente a química do oceano para restaurar sua alcalinidade natural e melhorar sua capacidade de absorver CO₂.

Um experimento químico no mar

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© Pexels

Em agosto do ano passado, uma equipe de oceanógrafos conduziu um experimento no Golfo do Maine, na costa leste da América do Norte. Durante quatro dias, os pesquisadores despejaram cerca de 65 mil litros de hidróxido de sódio no oceano.

A substância foi marcada com um corante vermelho para permitir que os cientistas acompanhassem sua dispersão na água. O procedimento fez com que uma área do mar assumisse temporariamente um tom avermelhado, facilitando o rastreamento da mistura no ambiente marinho.

Esse teste faz parte de uma estratégia conhecida como melhoria da alcalinidade oceânica, ou Ocean Alkalinity Enhancement (OAE). A ideia central é aumentar a alcalinidade da água do mar para que ela consiga absorver mais dióxido de carbono da atmosfera e armazená-lo por longos períodos.

Embora pareça uma técnica futurista, o princípio por trás dela não é totalmente novo. Há mais de dois mil anos, agricultores gregos já utilizavam processos semelhantes ao aplicar cal nos solos para reduzir a acidez das terras agrícolas. Décadas atrás, países escandinavos também recorreram ao uso de cal para neutralizar a acidez de rios afetados pela chuva ácida, ajudando a recuperar populações de peixes.

Por que os cientistas estão olhando para os oceanos

O oceano é naturalmente alcalino e já funciona como um gigantesco reservatório de carbono. Estima-se que ele contenha mais de 38 trilhões de toneladas de carbono dissolvido, principalmente na forma de bicarbonato.

No entanto, à medida que o oceano absorve quantidades crescentes de CO₂, ocorre o fenômeno conhecido como acidificação oceânica. Esse processo reduz gradualmente a capacidade da água de continuar absorvendo carbono da atmosfera. Como consequência, mais dióxido de carbono permanece no ar, intensificando o efeito estufa e o aquecimento global.

A melhoria da alcalinidade oceânica tenta justamente reverter parte desse processo. Ao adicionar compostos alcalinos, como o hidróxido de sódio, os cientistas esperam restaurar o equilíbrio químico da água do mar e ampliar novamente sua capacidade de capturar carbono.

Se a técnica se mostrar eficaz em grande escala, ela poderia ajudar o planeta a manter o aumento da temperatura média global abaixo de 2 graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais, uma das metas centrais dos acordos climáticos internacionais.

O que os resultados iniciais indicam

Embora pequeno em comparação com a vastidão dos oceanos, o experimento no Golfo do Maine forneceu dados importantes.

Os pesquisadores lançaram o composto químico a cerca de 80 quilômetros da costa de Massachusetts. Para monitorar a área, utilizaram planeadores oceânicos autônomos, veículos submarinos de longo alcance e sensores instalados em diferentes pontos da região.

Ao acompanhar a dispersão do corante vermelho, os cientistas conseguiram medir mudanças na química da água. Os resultados indicaram que até 10 toneladas adicionais de carbono foram absorvidas pelo oceano durante o experimento.

Além disso, o pH da água aumentou de 7,9 para 8,3. Esse valor corresponde aproximadamente aos níveis de alcalinidade que os oceanos apresentavam antes da era industrial.

Os pesquisadores também observaram organismos marinhos pequenos, como plâncton, lagostas e larvas de peixes, para verificar possíveis impactos ecológicos. Segundo os dados coletados, esses organismos não apresentaram sinais imediatos de dano.

O estudo foi realizado com autorização da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). No entanto, ele não avaliou possíveis efeitos sobre animais maiores ou mamíferos marinhos.

Uma solução climática promissora ou controversa

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Apesar dos resultados encorajadores, a ideia de modificar deliberadamente a química dos oceanos ainda gera debates.

Diversas startups já demonstraram interesse em aplicar a técnica em escala muito maior. Nesse modelo, a captura adicional de carbono poderia ser convertida em créditos de carbono vendidos a empresas que buscam compensar suas emissões.

Por outro lado, ambientalistas alertam para os riscos de transformar a geoengenharia climática em um mercado lucrativo sem supervisão adequada. Muitos especialistas defendem que experimentos desse tipo sejam conduzidos principalmente por instituições científicas independentes e transparentes.

Mesmo assim, o experimento no Golfo do Maine representa um passo importante para entender se a melhoria da alcalinidade oceânica pode realmente contribuir para enfrentar a crise climática.

Se pesquisas futuras confirmarem sua eficácia e segurança, essa estratégia poderá se tornar uma das ferramentas possíveis — ainda que controversas — no esforço global para reduzir o impacto das mudanças climáticas.

 

[ Fonte: Meteored ]

 

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