Pular para o conteúdo
Ciência

Cientistas identificam um mecanismo que pode acelerar a ruptura do “Glaciar do Juízo Final” na Antártida — e alterar projeções do nível do mar

Um novo estudo internacional identificou que processos internos de fraturamento no glaciar Thwaites, na Antártida, estão avançando mais rapidamente do que o derretimento causado pelo oceano. A descoberta sugere que o chamado “Glaciar do Juízo Final” pode estar se aproximando de um ponto de instabilidade capaz de elevar significativamente o nível do mar.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

O glaciar Thwaites, na Antártida Ocidental, é considerado um dos maiores elementos de incerteza nas projeções sobre o aumento do nível do mar. Isso porque ele contém gelo suficiente para elevar o nível global dos oceanos em cerca de 65 centímetros caso colapse. Agora, um estudo publicado no Journal of Geophysical Research: Earth Surface revela que a instabilidade da plataforma de gelo associada ao Thwaites está aumentando não apenas devido ao derretimento oceânico, mas principalmente por processos internos de fraturamento.

Por que Thwaites é chamado de “Glaciar do Juízo Final”

A Antártida guardava um segredo sob o gelo: fragmento de âmbar revela como era seu antigo bosque
© Unsplash – Matt Palmer.

O Thwaites é uma das maiores massas de gelo da Antártida e atua como um “bloqueio” natural para geleiras vizinhas. Se ele se romper, essas outras massas de gelo também poderão fluir para o oceano, intensificando o aumento do nível do mar. Por esse motivo, a estabilidade do glaciar é monitorada de perto por equipes internacionais.

O papel das fraturas internas na perda de estabilidade

A nova pesquisa, liderada por Debangshu Banerjee, da Universidade de Manitoba, analisou dados de satélites e medições GPS coletados ao longo de 20 anos, entre 2002 e 2022. O foco foi a plataforma de gelo oriental do Thwaites (TEIS), que funciona como uma extensão flutuante do glaciar principal.

Segundo os cientistas, essa plataforma passou por um processo contínuo de ruptura progressiva, especialmente em uma região de cizalhamento, onde o gelo se deforma e se fragmenta devido ao estresse acumulado.

O estudo identifica duas fases principais:

  1. Fraturas paralelas ao fluxo do gelo, longas e profundas.

  2. Fraturas curtas e perpendiculares, que enfraquecem a estrutura e ampliam a separação entre o gelo e o fundo marinho.

Com isso, a plataforma perde suporte e começa a se deslocar mais rapidamente em direção ao oceano.

Um ciclo de retroalimentação que acelera a ruptura

Os autores apontam um mecanismo de retroalimentação positiva:

  • As fraturas fazem o gelo se mover mais rápido.

  • O movimento acelerado gera ainda mais fraturas.

  • O dano acumulado reduz a rigidez estrutural da plataforma.

Esse ciclo pode levar a um colapso acelerado, mesmo sem grandes variações de temperatura oceânica.

Um dos achados mais relevantes é que as fraturas no centro da plataforma se expandem mais rápido do que o derretimento basal causado pelas correntes de água quente. Ou seja, a ruptura atual é guiada principalmente pela mecânica interna do gelo, e não apenas pelo aquecimento dos oceanos.

Como os cientistas monitoraram o glaciar

O estudo combinou:

  • Imagens de satélite Landsat e Sentinel-1, para mapear o avanço das fissuras.

  • Estações GPS, instaladas diretamente no gelo, para medir a velocidade de deslocamento.

Essa integração permitiu observar como a dinâmica da plataforma mudou ao longo de duas décadas.

Impacto potencial para o nível do mar

Antártida
© NASA

Se a plataforma de gelo oriental do Thwaites colapsar, o glaciar terrestre deixará de ser “segurado” e começará a fluir mais rapidamente para o oceano. Isso pode elevar o nível global do mar em até 65 cm, com impactos severos para cidades costeiras, sistemas agrícolas e infraestrutura portuária.

Além disso, o padrão de fraturamento observado no Thwaites pode estar se repetindo em outras plataformas antárticas, indicando um possível cenário de instabilidade regional.

Um alerta para o futuro

Os pesquisadores afirmam que o processo já iniciou uma trajetória que pode ser difícil de reverter. Caso o ciclo de fraturamento continue, a desintegração pode se acelerar de maneira inesperada.

O Thwaites, portanto, não é apenas um glaciar isolado: ele é um indicador do futuro de grandes sistemas de gelo polares — e, por consequência, do futuro do nível do mar no planeta.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados