A passagem de objetos interestelares pelo nosso Sistema Solar ainda é um evento raro — e cada nova detecção abre uma janela única para o passado da galáxia. Em 2025, astrônomos identificaram mais um desses viajantes cósmicos: o cometa 3I/ATLAS. Agora, estudos recentes ajudam a reconstruir sua história e indicam que ele pode ser muito mais antigo do que se imaginava, carregando consigo pistas sobre ambientes onde estrelas e planetas ainda nem existiam.
Um visitante mais velho que o próprio Sol

O 3I/ATLAS é apenas o terceiro objeto interestelar confirmado a cruzar nosso Sistema Solar — e pode ser o mais antigo já observado. Estimativas sugerem que ele tenha até 11 bilhões de anos, mais do que o dobro da idade do Sol.
Isso significa que esse cometa se formou em uma fase muito inicial da galáxia, quando as condições eram bastante diferentes das que deram origem ao nosso sistema. Em outras palavras, estamos diante de um “fóssil cósmico”, preservado por bilhões de anos no espaço interestelar.
Observações no deserto do Atacama
Para entender melhor sua composição e origem, um grupo de pesquisadores liderado pela Universidade de Michigan utilizou o observatório ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array), localizado no deserto do Atacama, no Chile.
As observações foram feitas no outono de 2025, quando o cometa ainda estava relativamente próximo. Antes disso, sua descoberta durante o verão permitiu que agências como a NASA e a Agência Espacial Europeia direcionassem telescópios espaciais para estudá-lo enquanto ele passava por Marte e se aproximava da Terra, em dezembro.
Hoje, o 3I/ATLAS já está além da órbita de Júpiter, seguindo sua trajetória de saída definitiva do Sistema Solar — e visível apenas com instrumentos especializados.
O segredo está na água congelada
A principal pista sobre sua origem veio de um detalhe químico: a presença de grandes quantidades de deutério, uma forma mais pesada do hidrogênio, na água do cometa.
Esse elemento costuma se formar em ambientes extremamente frios. Segundo os pesquisadores, isso indica que o 3I/ATLAS surgiu em uma região muito mais gelada do que aquela onde o nosso Sol nasceu — possivelmente antes mesmo da formação da estrela do seu sistema de origem.
A astrônoma Teresa Paneque-Carreño, da Universidade de Michigan, explica que o Sol pode ter se formado em um ambiente mais “aglomerado”, cercado por outras estrelas jovens, o que geraria mais calor. Já o sistema do cometa pode ter se originado em isolamento, mantendo temperaturas muito mais baixas.
Um enigma ainda em aberto

Apesar dos avanços, o local exato de origem do cometa ainda é desconhecido. As observações feitas pelo telescópio espacial Hubble estimam que seu núcleo tenha entre 440 metros e 5,6 quilômetros de diâmetro — uma variação grande, mas compatível com objetos desse tipo.
Outro dado impressionante é sua velocidade: cerca de 220 mil quilômetros por hora, o que reforça sua origem externa ao Sistema Solar.
Para os cientistas, juntar essas informações é como montar um quebra-cabeça cósmico. Cada detalhe ajuda a entender melhor como eram as condições de formação de planetas e estrelas nos primórdios da galáxia.
Outros viajantes interestelares
Antes do 3I/ATLAS, apenas dois objetos interestelares haviam sido confirmados. O primeiro foi ‘Oumuamua, detectado em 2017 por um telescópio no Havaí, que intrigou cientistas por seu formato incomum e comportamento inesperado.
Dois anos depois, em 2019, foi a vez do cometa 2I/Borisov, identificado por um astrônomo amador na Crimeia. Diferente de ‘Oumuamua, Borisov apresentava características mais típicas de cometas conhecidos.
Agora, com o 3I/ATLAS, os pesquisadores têm uma nova oportunidade de comparar esses visitantes e aprofundar o entendimento sobre objetos que se formaram muito além da influência do nosso Sol.
Cada um deles traz uma mensagem silenciosa de regiões distantes da galáxia — e, ao que tudo indica, ainda estamos apenas começando a decifrar esse conteúdo.
[ Fonte: DW ]