Pular para o conteúdo
Ciência

Cientistas injetam células-tronco em fetos para tratar espinha bífida — e os primeiros resultados abrem uma nova fronteira da medicina antes do nascimento

Um ensaio clínico inédito aplicou células-tronco diretamente no feto durante cirurgia pré-natal para corrigir espinha bífida. O estudo indica que o procedimento foi seguro e pode ter melhorado os resultados cirúrgicos. A pesquisa inaugura uma nova etapa na terapia celular ainda dentro do útero.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

A medicina fetal acaba de dar um passo ousado. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, Davis realizaram o primeiro teste clínico do mundo que combina cirurgia pré-natal para espinha bífida com aplicação direta de células-tronco no feto.

Os resultados iniciais, publicados na The Lancet, indicam que o procedimento foi seguro — e podem sinalizar uma nova era no tratamento de malformações congênitas antes mesmo do nascimento.

O que é a espinha bífida

A espinha bífida é um defeito do tubo neural que ocorre quando a coluna e a medula espinhal do feto não se fecham completamente durante o desenvolvimento. A gravidade varia, mas muitos casos resultam em dificuldades motoras, problemas de controle da bexiga e complicações neurológicas ao longo da vida.

Nas últimas décadas, a cirurgia fetal — realizada ainda durante a gestação — passou a ser considerada padrão de cuidado em casos graves, pois melhora os resultados em comparação com a cirurgia apenas após o nascimento.

Mesmo assim, muitas crianças continuam enfrentando limitações significativas.

Como funcionou o experimento

O estudo, chamado CuRe Trial (fase I), envolveu seis gestantes entre 2021 e 2022 cujos fetos haviam sido diagnosticados com espinha bífida.

Todos passaram pela cirurgia padrão de reparo da coluna ainda no útero. Antes do fechamento da cirurgia, os médicos aplicaram um enxerto contendo células-tronco derivadas de placentas doadoras diretamente sobre o tecido exposto da medula espinhal.

A hipótese era que as células poderiam estimular regeneração e potencializar a recuperação neural.

A fase I de um ensaio clínico tem como principal objetivo avaliar segurança. Nesse aspecto, os resultados foram considerados animadores.

Segurança confirmada

Segundo a líder do estudo, Diane Farmer, chefe do Departamento de Cirurgia da UC Davis, a aplicação de células-tronco em um feto em desenvolvimento era um território desconhecido.

Nenhum dos bebês apresentou efeitos adversos atribuíveis à terapia celular. Não houve sinais de formação de tumores, infecções ou complicações relacionadas ao enxerto. Todas as cirurgias foram concluídas com cicatrização completa.

Possíveis benefícios além da segurança

Embora ainda seja cedo para conclusões definitivas, os pesquisadores observaram sinais promissores.

Exames de ressonância magnética indicaram reversão da hérnia de tronco cerebral em todos os recém-nascidos — um marcador importante de sucesso cirúrgico em casos de espinha bífida.

Além disso, nenhuma das crianças precisou de derivação ventricular (shunt) para tratar hidrocefalia antes da alta hospitalar, uma complicação comum nesses casos.

Se confirmados em estudos maiores, esses resultados podem representar uma melhoria significativa na qualidade de vida futura dessas crianças.

O que vem agora

Os cientistas acompanharão os seis primeiros participantes ao longo dos próximos anos para avaliar desfechos neurológicos e motores de longo prazo.

Paralelamente, já iniciaram uma fase I/IIa ampliada, que incluirá 35 fetos.

A pesquisa também abre caminho para aplicações semelhantes em outras condições que se desenvolvem ainda durante a gestação.

Uma nova fronteira da medicina

Terapias celulares e genéticas antes do nascimento representam uma das áreas mais promissoras — e complexas — da medicina contemporânea.

Intervir ainda no útero significa tratar doenças no momento em que o organismo está se formando, potencialmente prevenindo danos irreversíveis.

O estudo da UC Davis não encerra o debate científico, mas inaugura uma nova possibilidade terapêutica: corrigir defeitos congênitos antes que se tornem permanentes.

Se os próximos resultados confirmarem a eficácia, a medicina fetal poderá entrar em uma era em que não apenas se repara — mas se regenera.

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados