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Ciência

Cogumelos alucinógenos podem tratar TOC e compulsões, aponta estudo

Pesquisadores australianos descobriram que a psilocibina — composto alucinógeno de certos cogumelos — pode reduzir sintomas de TOC e transtornos compulsivos de forma rápida e duradoura. A substância mostrou resultados positivos em humanos e animais, abrindo caminho para novos medicamentos psiquiátricos mais eficazes.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Um composto encontrado em cogumelos alucinógenos pode revolucionar o tratamento de transtornos mentais. Uma revisão de 13 estudos científicos, financiada pelo governo da Austrália, revelou que a psilocibina tem efeitos terapêuticos expressivos contra transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e distúrbios relacionados, como o transtorno dismórfico corporal.

Cogumelos que aliviam a compulsão

Cogumelos alucinógenos podem tratar TOC e compulsões, aponta estudo
© Pexels

A pesquisa, publicada na revista Psychedelics, reuniu ensaios clínicos e testes com animais e concluiu que doses únicas de psilocibina reduziram sintomas obsessivos em questão de horas — e, em alguns casos, os efeitos duraram até 12 semanas.

O primeiro estudo citado, de 2006, já mostrava resultados impressionantes: nove pacientes com TOC resistente apresentaram melhora de 23% a 100% nos sintomas poucas horas após o uso da substância. Pesquisas mais recentes, conduzidas na Universidade Columbia, reforçaram o potencial: entre 12 adultos com transtorno dismórfico corporal, sete melhoraram e quatro entraram em remissão total após apenas uma dose de 25 mg.

Segundo o neurocientista James Gattuso, da Universidade de Melbourne, “a psilocibina exerce efeitos anticompulsivos robustos e sustentados, muitas vezes após uma única administração”.

Como funciona a psilocibina no cérebro

O TOC é causado por uma hiperatividade em circuitos cerebrais que controlam repetição e medo. A psilocibina parece “soltar” essas conexões, permitindo uma reorganização sináptica — uma espécie de “reset” dos padrões obsessivos.

Nos experimentos com camundongos, uma única dose reduziu o comportamento compulsivo por mais de 40 dias. Pesquisadores observaram também aumento de proteínas ligadas à neuroplasticidade, sugerindo que a substância ajuda o cérebro a se reconfigurar.

Além disso, há indícios de que o efeito terapêutico da psilocibina não depende apenas dos receptores de serotonina ligados ao transe alucinógeno, o que abre caminho para versões não psicodélicas, como a 1-metilpsilocina — capaz de aliviar sintomas sem alterar a percepção.

“Se conseguirmos separar o efeito terapêutico do efeito alucinógeno, poderemos criar remédios seguros e acessíveis”, afirma Gattuso.

O entusiasmo — e a cautela científica

Apesar dos resultados promissores, os cientistas pedem cautela. A revisão destaca que os estudos ainda envolvem poucos pacientes, sem controle rigoroso de placebo ou acompanhamento de longo prazo.

O neurocientista Thibault Renoir, coautor do trabalho, explica que ainda faltam respostas sobre a dosagem ideal, as diferenças de resposta entre homens e mulheres e o impacto de uso prolongado. “É possível que uma dose única mais alta seja mais eficaz do que o uso contínuo em microdoses”, diz ele.

Uma nova fronteira para a psiquiatria

Mesmo com as limitações, o estudo é considerado um marco na pesquisa sobre psicodélicos terapêuticos. A equipe da Universidade de Melbourne vê a psilocibina como uma das mais promissoras alternativas aos antidepressivos convencionais — capazes de oferecer alívio rápido e duradouro sem necessidade de uso diário.

“Se os efeitos forem confirmados em ensaios maiores, estaremos diante de uma das descobertas mais transformadoras da psiquiatria moderna”, afirma o psiquiatra Anthony Hannan, coautor da revisão.

A psilocibina, antes associada apenas a viagens psicodélicas, agora ganha força como aliada contra o TOC e outras compulsões. A ciência ainda caminha com cautela, mas uma coisa parece certa: o futuro da psiquiatria pode estar nas florestas — dentro de um pequeno cogumelo.

[Fonte: Correio Braziliense]

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