O registro foi feito por astrônomos do Observatório do Teide, nas Ilhas Canárias, Espanha, que combinaram dezenas de imagens para capturar o momento em detalhes. A descoberta foi divulgada em 15 de outubro no Astronomer’s Telegram, canal usado por cientistas do mundo todo para compartilhar eventos astronômicos em tempo real.
Mais do que um espetáculo cósmico, o evento oferece informações preciosas sobre como o Sol interage com corpos vindos de fora do Sistema Solar — algo que pode revelar segredos sobre a formação de planetas e a origem de materiais que circulam entre sistemas estelares.
Como um cometa “dispara” jatos de gelo

Quando um cometa chega perto do Sol, ele começa a ferver — literalmente. A superfície aquece de forma desigual, e o gelo que está sob a crosta rochosa passa diretamente do estado sólido para o gasoso, num processo conhecido como sublimação.
Esses gases precisam escapar, e quando encontram fissuras ou regiões frágeis, explodem em forma de jatos, levando junto partículas de poeira. Foi exatamente esse tipo de descarga que o 3I/ATLAS apresentou — e em grande estilo.
De acordo com o astrofísico Miquel Serra-Ricart, diretor científico do projeto Light Bridges, o comportamento é típico de cometas ativos. “A cauda do cometa aponta para longe do Sol, empurrada pelo vento solar — o que é esperado para objetos desse tipo”, explicou em entrevista ao Live Science.
As imagens foram produzidas em 2 de agosto, com o Telescópio Twin de Dois Metros, que capturou 159 exposições de 50 segundos cada. O resultado mostra o núcleo rochoso e gelado do cometa, envolto por sua coma — a “atmosfera” difusa que o circunda — e um jato brilhante de poeira e dióxido de carbono se projetando rumo ao Sol.
Um visitante raro e valioso
O 3I/ATLAS é apenas o terceiro objeto interestelar já registrado cruzando o Sistema Solar — depois do 1I/‘Oumuamua, em 2017, e do 2I/Borisov, em 2019. Agora, ele atinge seu periélio, o ponto mais próximo do Sol, e deve continuar visível por telescópios amadores até meados de 2026, quando passará da órbita de Júpiter e desaparecerá de vista.
Os jatos que ele libera são verdadeiros laboratórios naturais. Eles permitem que cientistas estudem como o calor solar altera cometas vindos de outros sistemas estelares, comparando sua composição com a de cometas locais.
Ao investigar como esses jatos se formam, o que os alimenta e como o vento solar molda a coma e a cauda, astrônomos podem compreender melhor a origem das substâncias voláteis e os processos que moldaram o nascimento dos planetas.
Uma despedida brilhante do Sistema Solar
A trajetória do 3I/ATLAS é um lembrete de que o espaço ainda guarda surpresas — inclusive visitantes de fora. E, enquanto ele viaja de volta à escuridão interestelar, deixa para trás dados valiosos e um lembrete poético: até os corpos mais gelados podem brilhar quando se aproximam do Sol.
[Fonte: Olhar Digital]