O documento foi publicado pelo Instituto Australiano de Política Estratégica (ASPI) e detalha como o Partido Comunista Chinês vem incorporando IA para reforçar mecanismos já existentes, como o Grande Firewall, a censura de conteúdos online e a vigilância nas cidades.
Segundo o relatório, ferramentas de inteligência artificial permitem monitorar mais pessoas, em mais detalhes e com menos esforço humano, tornando o controle estatal mais preditivo do que reativo. Em vez de agir apenas após protestos ou críticas, o sistema busca antecipar riscos e neutralizá-los antes que ganhem escala.
Para os autores, a IA deixou de ser apenas um apoio tecnológico e passou a funcionar como a base de um novo modelo de governança autoritária, capaz de integrar dados online e offline em tempo real.
Investimento maciço e apoio institucional

Pequim vem investindo centenas de bilhões de dólares em pesquisa, desenvolvimento e aplicações comerciais de inteligência artificial. Isso acontece mesmo diante das tentativas dos Estados Unidos de restringir a exportação de chips avançados para a China.
A tecnologia também tem apoio político explícito. O presidente Xi Jinping já afirmou que a IA traz “desafios e oportunidades para a governança do ciberespaço” — uma formulação que, segundo o ASPI, serve de eufemismo para manutenção do poder e estabilidade do regime.
Curiosamente, a população chinesa demonstra otimismo. Uma pesquisa global da Ipsos, em 2024, mostrou que os chineses são mais entusiasmados com IA do que cidadãos de outros 32 países.
Da rua ao tribunal: IA no sistema de justiça

Um dos pontos mais sensíveis do relatório trata do uso de IA no sistema de justiça criminal. Em algumas regiões, a tecnologia já aparece em todas as etapas: policiamento, julgamentos e prisões.
O monitoramento começa nas ruas. Estimativas citadas no estudo apontam para cerca de 600 milhões de câmeras espalhadas pelo país — o equivalente a quase três câmeras para cada sete pessoas. Muitas delas já usam reconhecimento facial, rastreamento de localização e análise de comportamento.
Em Xangai, documentos oficiais descrevem planos para câmeras e drones que “descobrem e aplicam a lei de forma inteligente”, alertando a polícia automaticamente sobre aglomerações.
Nos tribunais, a Suprema Corte chinesa orientou que todos desenvolvam sistemas de IA até 2025, capazes de auxiliar em julgamentos e rotinas administrativas. Em alguns lugares, algoritmos já recomendam se um suspeito deve ser preso ou receber pena alternativa.
Nas prisões, o conceito de “prisão inteligente” avança. Há registros de sistemas que analisam expressões faciais de detentos para detectar sinais de raiva ou tensão, além de terapias com realidade virtual assistidas por IA em centros de reabilitação.
Eficiência ou perseguição política?
Defensores do uso de IA argumentam que essas tecnologias ajudam a prevenir crimes e aumentar a segurança. Mas especialistas alertam para o risco estrutural. O sistema judiciário chinês tem taxa de condenação acima de 99%, e responde diretamente ao Partido Comunista.
Isso significa que a mesma tecnologia usada para coibir crimes pode ser direcionada à perseguição política, especialmente contra grupos vulneráveis. O relatório cita minorias étnicas e religiosas, como os uigures, além de dissidentes, como alvos potenciais desse modelo ampliado de vigilância.
Outro ponto sensível é o desenvolvimento de grandes modelos de linguagem em idiomas minoritários — uigur, tibetano, mongol e coreano. Segundo os pesquisadores, esses sistemas podem ser usados para monitorar comunicações e moldar a informação que essas comunidades recebem.
O papel das big techs chinesas
O relatório também chama atenção para o papel das gigantes de tecnologia chinesas. Empresas como ByteDance, Tencent e Baidu são descritas como facilitadoras centrais da censura digital.
No Douyin (versão chinesa do TikTok), conteúdos politicamente sensíveis são removidos ou rebaixados automaticamente. A Tencent utiliza IA para atribuir “pontuações de risco” aos usuários, com base em seu comportamento online. Já o Baidu fornece ferramentas de moderação e cooperou com autoridades em mais de 100 investigações criminais, segundo o documento.
Essas empresas, além de cumprir regras, passaram a desenvolver e vender tecnologia de censura, ampliando o ecossistema de vigilância pelo país.
Um modelo que pode se espalhar
O uso de IA na China não preocupa apenas por seus efeitos internos. O relatório alerta que o país se tornou um grande exportador de tecnologias de vigilância. Modelos chineses — muitos deles de código aberto e baixo custo — já atraem governos autoritários em outras regiões, como Irã e Arábia Saudita.
O risco, segundo os especialistas, é que ao adotar esses sistemas, países importem também a lógica embutida neles: monitoramento contínuo, censura, controle e manipulação da informação.
Um alerta que vai além da China
O relatório do ASPI reforça um alerta global: a inteligência artificial não é neutra. Em sistemas políticos fechados, ela pode amplificar desigualdades, silenciar vozes e transformar vigilância em rotina invisível.
Enquanto Pequim avança na integração total da IA ao Estado, a discussão internacional ganha urgência. A pergunta que fica é até onde essa lógica pode se expandir — e quem será capaz de impor limites antes que a tecnologia torne o controle absoluto algo banal e difícil de reverter.
[Fonte: CNN Brasil]