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Ciência

Ninguém esperava o que aconteceu sob turbinas no Atlântico: parque eólico em Portugal virou abrigo para polvos, tubarões e mais de 270 espécies

Durante anos, parques eólicos marinhos foram vistos apenas como estruturas industriais gigantescas instaladas no oceano. Mas um projeto português começou a revelar algo inesperado sob a superfície: plataformas metálicas que acabaram funcionando como verdadeiros recifes artificiais, atraindo uma explosão de vida marinha que surpreendeu até os pesquisadores envolvidos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A poucos quilômetros da costa de Portugal, no Atlântico, um experimento energético silencioso acabou se transformando em um fenômeno ecológico inesperado.

O parque eólico offshore WindFloat Atlantic, localizado a cerca de 20 quilômetros de Viana do Castelo, foi originalmente projetado para gerar energia limpa para aproximadamente 25 mil residências. Com três plataformas flutuantes e capacidade instalada de 25 megawatts, ele entrou para a história por ser o primeiro parque eólico marítimo semissubmersível do mundo.

Mas o que realmente chamou a atenção dos cientistas não aconteceu acima das ondas — e sim abaixo delas.

Após oito anos de monitoramento ambiental, pesquisadores descobriram que o entorno das estruturas passou a abrigar um ecossistema extremamente rico e diverso. Segundo os dados apresentados no evento WindEurope Annual Event 2026, pelo menos 272 espécies diferentes foram registradas na área.

Entre elas estão polvos, raias, tubarões, golfinhos-comuns, orcas e até um tubarão-peregrino, um dos maiores peixes do planeta.

As turbinas acabaram funcionando como recifes artificiais

Oceano Ingenieria
© https://www.barrierreef.org/

O principal motivo para essa explosão de biodiversidade parece estar nas próprias estruturas submersas das plataformas.

As bases metálicas das turbinas foram lentamente colonizadas por mexilhões, cracas, anêmonas e outros organismos marinhos que normalmente se fixam em superfícies rígidas. Esse processo criou uma cadeia alimentar completa no local.

Pequenos organismos atraíram peixes menores. Depois vieram predadores maiores.

Os polvos, por exemplo, passaram a utilizar as cavidades e estruturas das plataformas como esconderijos naturais para caça e proteção. Isso é especialmente relevante porque o fundo marinho daquela região era predominantemente arenoso antes da instalação do parque, oferecendo poucos abrigos naturais.

Pesquisadores observaram aumento significativo na biomassa de peixes e na presença de elasmobrânquios — grupo que inclui tubarões e raias — dentro da área delimitada pelas turbinas.

O “efeito reserva” pode ser a verdadeira chave da transformação

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© https://x.com/NeuroscienceNew

Outro fator importante identificado pelos cientistas foi o chamado “efeito reserva”.

A área ocupada pelo parque eólico possui restrições severas à pesca comercial. Isso reduz drasticamente a pressão humana sobre a fauna local e cria uma espécie de refúgio involuntário para diversas espécies marinhas.

Segundo os dados do monitoramento, os golfinhos-comuns aumentaram sua atividade na região após o início da operação do parque.

Além da vida marinha, os pesquisadores registraram mudanças importantes também entre as aves. Antes da construção do parque, os estudos identificavam 17 espécies na região. Agora, esse número saltou para 33.

Foram registradas ainda três espécies de morcegos marinhos e diferentes mamíferos oceânicos, compondo o que os próprios pesquisadores descreveram como um “ecossistema ativo”.

O relatório foi elaborado pela consultoria Blue Grid em colaboração com o Centro de Ciências do Mar da Universidade de Lisboa e o Instituto Politécnico de Leiria.

Nem todos concordam com os resultados apresentados

Apesar do entusiasmo dos pesquisadores e da empresa responsável pelo parque, o setor pesqueiro português contesta parte das conclusões.

A empresa Ocean Winds afirma que os desembarques pesqueiros em Viana do Castelo não sofreram queda desde o início da operação do parque.

Mas associações locais de pesca apresentam uma visão bastante diferente.

A organização VianaPesca já havia denunciado anteriormente que espécies como pescada e besugo praticamente desapareceram em áreas próximas ao parque.

Segundo os pescadores, a proibição da atividade pesqueira dentro da zona delimitada pelas turbinas prejudica diretamente as comunidades locais, que perderam áreas tradicionais de pesca sem compensações proporcionais.

Alguns representantes do setor chegaram a classificar os relatórios ambientais como “propaganda empresarial” e pedem estudos independentes sobre os impactos ecológicos de longo prazo dessas estruturas.

Energia limpa e biodiversidade podem coexistir?

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Mesmo reconhecendo diferenças ecológicas entre a área do parque e regiões externas, pesquisadores da Universidade de Lisboa afirmam que não foram observados impactos negativos relevantes em organismos como fitoplâncton e zooplâncton.

Para Catarina Rei, os resultados representam uma evidência importante de que parques eólicos offshore flutuantes podem gerar benefícios ambientais locais além da produção de energia renovável.

Desde sua conexão à rede elétrica em dezembro de 2019, o WindFloat Atlantic já produziu cerca de 345 gigawatts-hora acumulados, evitando mais de 33 mil toneladas anuais de emissões de dióxido de carbono.

O caso português começa agora a alimentar uma discussão maior no setor energético: estruturas criadas para combater a crise climática poderiam também funcionar, em certas condições, como novas áreas de regeneração marinha?

A resposta ainda está longe de ser definitiva. Mas o que aconteceu sob essas turbinas no Atlântico já deixou claro que o oceano reage de maneiras muito mais complexas — e imprevisíveis — do que os cientistas imaginavam há poucos anos.

 

[ Fonte: Diario Ok ]

 

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