Pular para o conteúdo
Ciência

Como seus hormônios podem estar mandando na sua mente

A gente gosta de acreditar que controla as próprias emoções. Que tristeza, ansiedade ou irritação são apenas respostas racionais ao que acontece ao redor. Mas a ciência vem mostrando que essa história é bem mais complexa — e química. Literalmente. Hormônios, esses mensageiros invisíveis que circulam pelo corpo, podem influenciar profundamente o humor, a memória, o estresse e até a forma como pensamos.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Os hormônios são substâncias químicas produzidas por glândulas, órgãos e tecidos. Depois de liberados na corrente sanguínea, eles viajam pelo corpo até encontrar receptores específicos — como se dessem um “aperto de mãos” bioquímico que ordena uma ação.

A insulina, por exemplo, controla o açúcar no sangue. Mas esse é só um caso famoso. Hoje, os cientistas já identificaram mais de 50 hormônios no corpo humano, responsáveis por regular crescimento, sono, reprodução e, claro, o bem-estar mental.

“Hormônios afetam diretamente o humor e as emoções”, explica a psicóloga Nafissa Ismail, da Universidade de Ottawa. Eles interagem com neurotransmissores como serotonina e dopamina e também influenciam processos profundos do cérebro, como a criação de novos neurônios.

Por que transtornos mentais aumentam em fases hormonais

Não é coincidência que depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático apareçam com mais frequência durante grandes transições hormonais. Isso acontece especialmente entre mulheres.

Na infância, meninos e meninas apresentam taxas semelhantes de depressão. Mas, na adolescência, as meninas passam a ter o dobro de risco, diferença que se mantém ao longo da vida. Os hormônios sexuais são fortes candidatos a explicar isso.

Antes da menstruação, os níveis de estrogênio e progesterona caem. Para algumas mulheres, isso vem acompanhado de irritabilidade, tristeza e ansiedade. Em casos mais extremos, surge o transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM), marcado por alterações intensas de humor e até pensamentos suicidas.

“Para muitas mulheres, isso acontece todo mês e impacta profundamente a vida”, explica Liisa Hantsoo, psiquiatra da Universidade Johns Hopkins.

Quando oscilações hormonais bagunçam tudo

Curiosamente, o efeito pode ser o oposto em outros momentos do ciclo. Altos níveis de estrogênio antes da ovulação estão associados a bem-estar e sensação de felicidade. Já a alopregnanolona, derivada da progesterona, tem efeito calmante comprovado.

Não para por aí. Gravidez, pós-parto, perimenopausa e menopausa também trazem variações hormonais intensas. Logo após o parto, por exemplo, a queda brusca de estrogênio e progesterona ajuda a explicar por que até 13% das mulheres desenvolvem depressão pós-parto.

Segundo a psiquiatra Liisa Galea, da Universidade de Toronto, o problema não é o nível exato do hormônio, mas a mudança rápida. Algumas pessoas são muito mais sensíveis a essas oscilações do que outras.

E os homens? Eles também não escapam

Apesar de menos falado, homens também passam por alterações hormonais. A testosterona diminui com a idade — de forma gradual, mas contínua. Em alguns casos, essa queda está associada a mudanças de humor, irritabilidade e desânimo.

“Observamos sim alterações emocionais em alguns homens conforme a testosterona muda ao longo da vida”, afirma Ismail. É um tema que ainda recebe pouca atenção.

Hormônios, serotonina e o nascimento de neurônios

Uma das formas mais conhecidas de ação hormonal no humor envolve a serotonina e a dopamina. Baixos níveis dessas substâncias estão associados à depressão — e muitos antidepressivos atuam justamente aí.

Evidências mostram que o estrogênio pode aumentar a sensibilidade dos receptores de serotonina, além de estimular o crescimento de novos neurônios no hipocampo, região ligada à memória e às emoções.

Esse detalhe é importante: pessoas com depressão ou Alzheimer apresentam perda de neurônios no hipocampo. Já antidepressivos e até psicodélicos, como a psilocibina, estimulam a neurogênese nessa área.

Durante a menopausa, a queda do estrogênio reduz essa proteção. Daí surgem sintomas como o famoso “nevoeiro mental” e falhas de memória.

Estresse, cortisol e um cérebro sobrecarregado

Quando o assunto é estresse, o vilão principal é o cortisol. Ele é liberado em situações de ameaça para preparar o corpo para reagir. No curto prazo, ajuda. No longo prazo, vira problema.

O estresse crônico mantém o cortisol elevado, o que pode causar inflamações no cérebro e destruir neurônios do hipocampo, da amígdala e do córtex pré-frontal. O resultado? Dificuldade de concentração, problemas de memória e emoções fora de controle.

Oxitocina, tireoide e o equilíbrio emocional

Enquanto o cortisol acelera, a oxitocina, conhecida como “hormônio do afeto”, ajuda a frear o estresse. Ela está ligada à sensação de segurança, vínculo e conexão — fatores que reduzem naturalmente os níveis de cortisol.

Já os hormônios da tireoide também entram no jogo. Quando estão altos demais, podem causar ansiedade. Quando baixos, estão associados à depressão. Ajustar esses níveis costuma aliviar os sintomas.

Por isso, alterações de humor frequentemente levam médicos a pedir exames hormonais antes de qualquer diagnóstico psiquiátrico definitivo.

Novos tratamentos no horizonte

Esse avanço no entendimento abriu caminho para novas terapias. Um exemplo é a brexanolona, medicamento que imita a alopregnanolona e mostrou grande eficácia contra depressão pós-parto.

Há estudos indicando que reposição de testosterona pode potencializar antidepressivos em alguns homens. Terapias com estrogênio também ajudam parte das mulheres na perimenopausa. Mas nada funciona para todo mundo.

“Sabemos que hormônios influenciam a mente”, resume Ismail. “Agora precisamos entender exatamente como — para tratar melhor cada pessoa.”

A grande virada da ciência é justamente essa: sair do tratamento genérico e caminhar para uma saúde mental mais personalizada. Porque, no fim das contas, seu humor pode ter menos a ver com força de vontade — e muito mais com química.

[Fonte: Correio Braziliense]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados